quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

Debate: Craig x Curley: a distinção entre ser cristão e calvinista

Retirado dos site : http://deusamouomundo.com/calvinismo/debate-entre-craig-e-curley-distincao-entre-ser-cristao-e-ser-calvinista/

A distinção entre ser Cristão e ser Calvinista

Nota dos tradutoresO texto a seguir é um trecho adaptado do debate entre Willian Lane Craig e Edwin Curley. O tema central do debate é a “Existência do Deus Cristão”. É interessante notar que Curley, um “ex-cristão”, levanta diversos argumentos para demonstrar que o Deus conforme apresentado pela bíblia é ilógico e, portanto, é muito provável que ele não seja o verdadeiro Deus. O engraçado do seu discurso é que os argumentos são todos voltados contra a concepção calvinista de Deus (por exemplo, um Deus que escolhe arbitrariamente pessoas para mandar para o inferno), o que de fato não é a verdade bíblica; ou seja, o oponente do cristianismo erra completamente o alvo ao atacar o Deus cristão. Respondendo aos argumentos, o Dr. Craig faz a distinção entre ser Cristão e ser Calvinista, tendo em vista que Curley afirmou que “o calvinismo é o cristianismo”, algo comum entre os calvinistas (e parece que entre os “ex-cristãos calvinistas” também). Essa resposta do Dr. Craig foi arrasadora.
Edwin Curley – Discurso de Abertura
1. O.K. Há outros lugares que eu gostaria de estar esta noite. E certamente há outros lugares nos quais minha esposa gostaria de me acompanhar esta noite. Mas eu estou aqui para argumentar contra a existência do Deus cristão. Eu não estou aqui para defender o ateísmo, ao contrário da impressão que o discurso do Dr. Craig pode ter lhe dado. Olha, eu acho que há muitas maneiras de pensar sobre Deus. E eu acho que algumas delas são maneiras que eu poderia aceitar. Eu simplesmente não posso aceitar o Deus cristão.
2. Quando eu era criança, eu era cristão. Quando adulto, passei a ter dúvidas sobre a fé. Por um tempo autodenominei-me agnóstico. Estas dúvidas levaram-me, enquanto eu estava na faculdade, para o estudo da filosofia e sua história. Muitos dos filósofos que estudei eram cristãos, para quem a defesa racional da sua religião era muito importante. Meus estudos não sanaram minhas dúvidas; eles multiplicaram-nas. Hoje eu penso que não há qualquer chance da religião cristã ser verdadeira. ‘Agnóstico’ não parece mais o rótulo correto para mim, não quando estamos falando do Deus cristão.
3. O rótulo mais comum para alguém que uma vez já abraçou o cristianismo e, em seguida, o rejeitou  é “herege”. Eu não tenho nenhuma objeção a esse rótulo, agora que já concordaram em abolir a pena de morte por heresia. (Risos)
4. Minha iniciação neste caminho se deu através da leitura do livro de orações que minha mãe me deu quando eu tinha 16 anos. Na parte de trás estavam impressos os artigos que os membros da minha religião, a Igreja Episcopal, deveriam concordar. Eu não os li cuidadosamente quando estava me preparando para confirmação. Naquele momento eu tinha apenas 13 anos e havia muitas coisas que eu não entendia. O nosso ministro era um homem bom: muito inteligente, culto e humano. Aos 13 anos, sobre sua autoridade, eu estava disposto a aceitar o que quer que ele me dissesse.
5. Então, aos 16 anos, eu li os artigos da religião cuidadosamente e criticamente pela primeira vez. Eu estava perturbado que minha igreja aceitara a predestinação. Antes da fundação do mundo, dizia um dos artigos, Deus tinha escolhido alguns vasos para honra e outros para desonra. Até onde eu podia ver, havia tão bom fundamento bíblico para este ensino quanto para qualquer outra doutrina afirmada pela igreja. Um dos principais princípios de minha igreja era o de que ninguém deveria ser obrigado a acreditar, como necessária para a salvação, em qualquer doutrina que não pudesse ser provada a partir das Escrituras.
6. Havia também fortes razões filosóficas para aceitar a predestinação. Se Deus é onisciente, se ele sabe de tudo, ele deve ter conhecimento prévio do destino das suas criaturas. Se ele é onipotente, pode fazer qualquer coisa, ou qualquer coisa que é logicamente possível fazer, então nada acontece senão por sua vontade. Então, se eu acabar no inferno, ele já conheceria este destino desde a eternidade, e ele teria desejado isso desde a eternidade.
7. A predestinação não é tão amplamente aceita hoje como era quando a minha igreja foi fundada no século 16. Eu conheço muitos cristãos que a rejeitam. E eu simpatizo com eles. O seu coração está no lugar certo, com certeza. Eu não posso acreditar que um Deus justo e amoroso criaria seres e os predestinaria a passar a eternidade no inferno. Mas os cristãos podem rejeitar a predestinação somente se assumirem o custo de ignorar a autoridade de suas escrituras e as implicações de sua teologia.
8. Esqueça a predestinação. E o inferno? Essa é uma situação diferente. Eu não vejo nenhuma razão filosófica para crer em um castigo eterno para os pecadores. A filosofia é contrária a isso.
9. A filosofia ensina que a punição deve ser proporcional ao crime. Vamos admitir, para o bem do argumento, que todos nós somos em algum sentido pecadores. Qual de nós, olhando para o seu coração, pode dizer honestamente que nunca fez nada seriamente errado, pelo menos uma vez em sua vida? Mas a doutrina do Inferno advoga que a maioria de nós pecadores sofrerão tormento eterno.
10. Em alguns casos, isso pode ser justo. Hitler foi o responsável pelas mortes horríveis de milhões de judeus, para não mencionar os ciganos, eslavos e homossexuais. Talvez para crimes dessa magnitude o castigo eterno possa ser justificado.
11. Eu sou, no sentido que eu especifiquei, um pecador. Mas, com toda sinceridade, devo dizer que para mim os meus pecados parecem muito menores em comparação com os de Hitler. Eu não matei ninguém, nem torturei ninguém, nem fui responsável pela morte ou tortura de qualquer um. No entanto, se a doutrina do inferno estiver correta, farei companhia a Hitler no Inferno. Sem dúvida, eu não sou um juiz imparcial neste caso, mas não me parece justo. (Risos)
12. Apesar dessas dificuldades, o inferno fazia parte do ensino da minha igreja, e faz parte do ensino de muitas igrejas cristãs. Este não é um acidente. A doutrina tem forte apoio nas escrituras cristãs.
13. A crença no inferno também perdeu força desde que minha igreja foi fundada. Eu encontro muitos cristãos que rejeitam o inferno. O seu coração está no lugar certo, com certeza. Eu não posso acreditar que um Deus justo e amoroso destinaria a maioria de suas criaturas a passar a eternidade no inferno. Mas os cristãos que rejeitam o inferno podem fazê-lo somente ao custo de rejeitar também a autoridade de suas escrituras.
14. Eu concedo, para o bem do argumento, de que todos nós somos pecadores. Agora, deixe-me qualificar isso. Muito provavelmente todos nós nesta sala somos pecadores, desde que o requisito para ser um pecador seja fazer algo muito errado ao menos uma vez na vida. Mas eu não admito que absolutamente todos os seres humanos são pecadores.
15. Eu tenho uma neta, a quem eu amo. Ela é uma garota doce e tem apenas sete anos. Ela já deve ter cometido um grande número de pecados. Sei que às vezes ela não se importa muito com sua mãe. Às vezes ela é malvada com seu irmão menor. Eu não acho nada disso grave o suficiente para merecer o castigo eterno. Mas, talvez, há pecados que eu não conheça. Em qualquer caso, ela não é completamente inocente. Provavelmente nenhuma criança dessa idade é completamente inocente. E Jesus disse que devemos ser perfeitos como o Pai celeste é perfeito. Isso é um padrão difícil.
16. Mas quando eu penso sobre situação de minha neta em idade tão precoce, digo, na unidade de tratamento intensivo neonatal, onde passou os primeiros meses de sua vida, com um tubo de oxigênio, um tubo de alimentação e um monitor cardíaco todo amarrado em seu corpo minúsculo, pois ela nasceu na 29ª semana de gravidez da minha filha e pesava menos de 1,3608kg ; então, eu não posso pensar nela, nessa fase de sua vida, como uma pecadora merecedora do inferno.
17. Na tradição cristã, é normal batizar crianças em tenra idade, pois acredita-se que eles vêm ao mundo contaminados pelo pecado de Adão e Eva. Esta é a doutrina do pecado original. Eu não posso acreditar no pecado original. Minha neta pode ser uma pecadora agora, mas não quando ela estava na unidade de terapia intensiva.
18. O pecado original também é hoje menos aceito do que quando minha igreja foi fundada. Encontro muitos cristãos que rejeitam o pecado original. Eu simpatizo com eles. O seu coração está no lugar certo, com certeza. Mas os cristãos podem rejeitar o pecado original somente ao custo de um substancial re-interpretação das suas escrituras e tradições.
19. De forma consistente com a doutrina do pecado original, é comum entre os cristãos a acreditar que se nós somos justificados, é pela fé em Jesus. Uma vez que todos nós somos pecadores, não podemos ganhar a salvação pelas nossas obras. Mas podemos ser perdoados e tratados como se fôssemos justos. A marca de termos sido perdoados é que Deus, por um ato de graça, dá-nos a fé.
20. Esta doutrina tem implicações que eu acho horríveis. Isso implica que aqueles entre nós que não têm fé em Jesus não receberam a graça, não foram perdoados, e, se continuarem nesse estado, vão para o inferno. Portanto, a doutrina da justificação pela fé, que tem forte apoio nas escrituras cristãs, conduz inevitavelmente ao exclusivismo, a idéia de que todos os que rejeitam a doutrina cristã devem ser condenados, não importa quão bom eles podem ser, por padrões comuns.
21. Se Deus escolheu os beneficiários de sua graça com base em algum mérito distinto que possuíam, isso pode não ser injusto com aqueles que ele não escolheu, a quem presumiria-se a falta que tal mérito. Mas isso seria contrário à idéia de graça, o que implica um dom gratuito, não é algo dado a alguém que merece por conta do seu mérito.
22. Por isso, normalmente é sustentada a ideia de que Deus não tem qualquer razão para escolher alguns e outros não. Ele age de forma totalmente arbitrária. É um dogma duro e horrendo essa “doutrina da graça”. Suponho que, se você já aceitou o inferno e o pecado original, você pode ser grato por ter uma chance de salvação, mesmo que não parece ser uma loteria em que as chances não estão do seu lado. Claro, se você acha que tem fé, então também pode pensar que ganhou na loteria e ignorar as considerações sobre os infelizes perdedores.
23. Bem, até agora minhas objeções têm sido principalmente teológicas; são objeções aos ensinamentos cuja base é essencialmente bíblica e não filosófica. A principal exceção a essa generalização é a doutrina da predestinação, que tem fundamentos filosóficos, bem como fundamentos bíblicos. Sei que muitos cristãos aqui esta noite não entenderão que a sua compreensão do cristianismo os obriga a aceitar todas essas doutrinas, ou porque eles têm uma interpretação diferente da escritura, ou porque não consideram as escrituras cristãs como absolutamente autoritária na determinação de suas crenças e conduta . Eu tenho dito que aqueles cristãos que adotam uma atitude mais livre em relação as escrituras e não entendem que a sua aceitação do cristianismo os impele à predestinação, ou inferno, ou pecado original, ou a justificação pela fé, ou exclusivismo, têm seus corações no lugar certo, eu digo. Mas eu também acho que os seus pés podem estar plantadas na rampa escorregadia da heresia, e que os cristãos mais conservadores, que conferem maior autoridade às Escrituras, têm o direito mais claro para se autodenominarem cristãos. O quanto do cristianismo tradicional você pode rejeitar e ainda ser um cristão?
24. Vamos considerar agora às objeções não tão biblicamente embasadas. É comum entre os cristãos acreditar que Deus é um ser pessoal, que criou o universo e que é onipotente, onisciente e perfeitamente bom. De fato, é comum dizer que Deus deve possuir todas as perfeições.
25. No entanto, observa-se que o mundo, este ser perfeito criado, tem muitas imperfeições: há muita alegria no mundo; mas também há muito sofrimento, do qual qrande parte aparentemente imerecido; e há pecado. Nós chamamos essas coisas de “mal”. Como tais coisas podem existir em um mundo que deve sua origem a um Deus com os atributos que os cristãos acreditam que seu Deus possui?
26. A resposta usual para isso é dizer que embora Deus podesse ter criado um mundo sem o mal, foi melhor para ele criar esse mundo, apesar dos males que ele contém. A ocorrência desses males era necessário para os bens que são ainda maiores. Se Deus tivesse criado o mundo sem nenhum mal, esse mundo seria menos bom do que o atual, considerando todo o conjunto de coisas, mesmo com todo o mal que ele contém. Isso é chamado de defesa do bem maior.
27. O cristão pode dizer: Nós, seres humanos com razão fazemos muitas coisas que esperamos causar danos evitáveis. Nós construímos uma ponte de São Francisco a Marin County, sabendo que na construção alguns trabalhadores vão cair na água e se afogar. Poderíamos evitar a morte por não construir a ponte. Mas a ponte é um grande bem. Dadas as nossas limitações humanas, não podemos construí-la sem que algumas pessoas morram como consequência. Então, nós a construímos e aceitamos a morte como parte do custo interligar os locais através dessas águas. E permissão divina para a existência do mal também pode ser justificada pelo bem maior a qual tal permissão conduz.
28. Um ser onipotente, é claro, não enfrenta todas as escolhas difíceis que fazemos. Se ele quer uma ponte sobre as águas, ele só precisa dizer: “Faça-se uma ponte.” E haverá.
29. Uma pergunta que a defesa do bem maior levanta é: que tipo de bem poderia estar tão intimamente conectado com o mal que mesmo um ser onipotente teria de aceitar o mal como custo para realizar este bem? E que bem poderia ser tão grande que justificasse tal ser aceitar a quantidade de mal que existe no mundo como preço para alcançar esse bem?
30. A resposta habitual nos dias de hoje é: a liberdade. Se existir o bem moral, deve haver liberdade. E o preço de dar liberdade aos seres humanos é que às vezes eles vão abusar dela. Mesmo um ser onipotente não pode levar uma pessoa a fazer o bem livremente. E a liberdade, com o bem moral que às vezes resulta dela, é um bem suficientemente grande que faz com que os males, que também resultam dela, sejam aceitáveis. [Isto é o que é chamado de defesa do livre-arbítrio.]
31. Há um problema, é claro, ao se apelar para a liberdade humana a fim de resolver o problema do mal, quando você também acredita em predestinação e presciência divina. Este é um problema de longa data, que muitos filósofos têm enfrentado. Nenhuma solução ganhou aceitação geral. Se o Dr. Craig aceita as doutrinas da predestinação e presciência divina e também apela para a liberdade humana para resolver o problema do mal, ele terá que trabalhar uma maneira de explicar como essas coisas são consistentes, e eu vou ouvir com interesse essa explicação.
32. Nesse meio tempo, porém, existem outros problemas sobre o apelo à liberdade. Há males cuja ocorrência não tem nenhuma conexão visível com a liberdade. Teólogos chamam de males naturais, ou seja, coisas como terremotos, inundações, furacões, doenças, e assim por diante. Se um veado morre em um incêndio florestal, sofrendo horrivelmente, isso é um mal. Não é só o sofrimento humano que devemos levar em consideração quando tratamos sobre o bem contra o mal neste mundo.
33. Agora, se você aceitar qualquer coisa como a teoria da evolução, você vai acreditar que havia outros animais no planeta muito antes dos humanos apareceram em cena. Muitos deles devem ter sofrido terrivelmente quando suas espécies se extinguiram. Nenhum destes sofrimentos pode ser justificado como uma conseqüência necessária da liberdade dos seres humanos. Nós não estávamos por perto na ocasião. Então, nada disso parece estar além do poder da onipotência para impedir sem o fracasso do bem.
34. Outra objeção: A defesa do bem maior pode facilmente levar a uma espécie de análise custo-benefício que é profundamente repugnante para o nosso senso moral. Considere o tipo de caso que preocupava Ivan no grande romance de Dostoievski, Os Irmãos Karamazov. A menina é tratada brutalmente por seus pais, que batem nela porque ela fez algo que os deixa com raiva. Talvez ela faz xixi na cama repetidamente, e eles acham que ela tem idade suficiente para controlar a bexiga. Ou, talvez, o pai é um alcoólatra que abusa sexualmente de sua filha. Os Irmãos Karamazov é uma ficção, mas para ouvir sobre casos reais como este, você só precisa ouvir regularmente o jornal das 11h00.
35. A defesa do livre-arbítrio parece dizer em casos deste tipo: bem, é tudo muito triste, é claro, mas este é o preço que temos que pagar para ter liberdade. Para o pai de ter a oportunidade de mostrar o bem moral, Deus deve dar-lhe a oportunidade de escolher o mal. Você não pode ter a oportunidade de um sem o outro. E o fato do pai ter a oportunidade de mostrar o bem moral é um grande bem tal que supera o fato de ele escolher o mal.
36. Mas note quem recebe o bem aqui: É o pai. E notem quem sofre o mal: É a menina. Admitamos, para efeito de argumentação, que o benefício supera o custo. A liberdade é um grande bem. Entretanto, ainda faz alguma diferença quem paga o custo. A liberdade pode ser um grande bem, até mesmo um bem tão grande que compensaria um sofrimento realmente horrível. Mas a justiça requer alguma atenção, não só para o valor líquido do bem, depois de ter subtraído o mal, mas também para a forma como o bem e o mal são distribuídos. Algumas distribuições não são justas.
37. A menção de Ivan Karamazov me traz à minha objeção final. Ivan afirma que, se Deus não existe, tudo é permitido. Dr. Craig acredita na mesma coisa. Dostoiévski, falando através de Ivan, pode ter declarado o problema do mal tão poderosamente quanto qualquer ateu, mas ele próprio era um cristão, que acreditava que Deus deveria existir para que tivessemos senso de moralidade.
38. Eu acho que o oposto é verdadeiro. Eu acho que a fé cristã torna a moralidade, como normalmente pensamos sobre ela, ininteligível. Considere a história de Abraão e Isaque. Um dia, Deus pôs Abraão à prova. Ele disse a Abraão: “Toma teu filho, Isaque, a quem amas, e vai à terra de Moriá, e oferece-o ali em holocausto.” Deus não dá nenhuma razão para este comando horrível. E Abraão não pede nenhuma. Ele simplesmente se propõe a obedecer o comando. E ele quase cumpre a ordem. Ele tem a faca levantada para matar seu filho, quando Deus envia um anjo para deter sua mão. Deus, então, diz que está satisfeito com Abraão. ” Porquanto agora sei que temes a Deus, e não me negaste o teu filho, o teu único filho.” No final, Deus realmente não requer o sacrifício. Mas ele exige que Abraão demonstre a sua disposição em realizar o sacrifício.
39. Qual é a moral desta história? Eu sugiro que seja esta: como criaturas de Deus, a nossa maior lealdade deve ser para Deus, mesmo que isso requeira o sacrifício de nossas mais profundas lealdades humanas; Deus é nosso Criador, nosso Senhor, e nós lhe devemos obediência absoluta, não importa o que ele ordene; ele pode ordenar qualquer coisa. Não existem restrições à sua vontade; de modo que pode fazer o que desejar. Não há previsão do que ele possa exigir; e não há nada que garanta que suas ordens não mudarão de uma hora para outra. No início da história, Deus ordena a Abraão que mate Isaque; no meio ele ordena a Abraão que não mate Isaque.
40. Se existe um Deus, que é capaz de ordenar qualquer coisa; e se a nossa maior lealdade deve ser a este Deus, não há nada, salvo a desobediência a Deus, que possamos seguramente afirmar que esteja além dos limites; nenhum ato de um certo tipo que simplesmente não possa ser feito, até mesmo estupro, para usar o exemplo do Dr. Craig. Se este Deus existe e devemos obedecê-lo incondicionalmente, então qualquer coisa pode vir a ser permitida. Este ponto de vista é destrutivo à moralidade comumente por nós idealizada.
41. Este é o meu argumento de abertura. Eu ofereci sete objeções, sete objeções mortais, eu diria: o teísmo cristão tem o compromisso com a predestinação, com o inferno, com o pecado original, com a justificação pela fé, e com o exclusivismo; não há uma boa solução para o problema do mal; e é destrutivo à moralidade conforme a entendemos. Estas são apenas algumas das objeções que tornam impossível para mim acreditar no Deus cristão.
William Lane Craig – Primeira Refutação
1. Eu quero agradecer ao Dr. Curley por suas observações muito pessoais e sensíveis. Nesse discurso eu espero mostrar, no entanto, que a maioria de suas objeções são destinadas a um alvo falso, em uma concepção de Deus que eu, como Cristão, rejeito. O que o Dr. Curley oferece é, de fato, um conjunto de sete objeções mortais ao Deus Calvinista, não ao Deus Cristão. Somente igualando o Calvinismo ao Cristianismo é que suas objeções têm alguma força. E eu nego exatamente essa igualdade. Eu não sou um Calvinista.
2. Agora, para aqueles que não são familiarizados com essa terminologia, deixe-me explicar. O Calvinismo é um tipo de teologia decorrente do reformador Protestante Francês João Calvino. Essa teologia mantém que todas as pessoas estão escravizadas ao pecado, mas que Deus em sua graça, escolheu soberanamente salvar somente alguns deles e deixar o resto para ser condenados. Aqueles que Ele predestinou à salvação, Ele traz irresistivelmente e os dá uma fé justificadora. Assim, a salvação ou condenação de alguém não é o resultado do livre arbítrio humano, mas de uma escolha soberana de Deus.
3. O Calvinismo é justamente a teologia dos Anglicanos, ou Episcopais, igreja na qual o Dr. Curley foi criado. Mas a maioria das denominações cristãs não defende o Calvinismo. É simplesmente paroquial pensar que todas essas outras denominações não são, portanto, verdadeiramente cristãs. Estão os Católicos, Metodistas, Batistas e Ortodoxos Orientais, todos sobre o terreno escorregadio da heresia como o Dr. Curley afirma? Eu acho que pensar desta forma seria um dogmatismo de visão extremamente limitada.
4. Minhas próprias visões teológicas são amplamente Wesleyanas, chamadas pelo nome de John Wesley, o fundador do Metodismo. Eu creio no livre arbítrio humano e que o lugar no qual nós passaremos a eternidade é, em última análise, o resultado de nossas próprias escolhas. Então, deixe-me considerar especificamente as objeções teológicas do Dr. Curley.
5. I: Predestinação.
O Dr. Curley apresenta o seguinte argumento:
1. Predestinação é incompatível com o amor e a justiça de Deus.
2. Predestinação é ensinada na Bíblia.
3. Portanto, o Deus da Bíblia não existe.
6. Eu concordo com a sua primeira premissa, mas eu nego a segunda, que predestinação, como ele a define, é ensinada na Bíblia. Ao contrário, eu acho que a Bíblia ensina que é a vontade de Deus que todas as pessoas sejam salvas. II Pedro 3.9 declara, “não querendo que ninguém se perca, senão que todos venham a arrepender-se”. E I Timóteo 2.4 diz, “Deus, nosso salvador deseja que todas as pessoas sejam salvas e cheguem ao pleno conhecimento da Verdade”. Então, a vontade de Deus é que todas as pessoas sejam salvas e o único obstáculo contra a realização da Sua vontade é a liberdade humana.
7. Mas e as passagens bíblicas sobre a predestinação? Eu sugiro que elas sejam entendidascorporativamente. Deus predestinou um grupo, um povo, para a glorificação e salvação. Mas quem é membro do grupo? Aqueles que respondem livremente a oferta de perdão de Deus em Cristo Jesus e colocam sua confiança nEle. E, desta forma, eu penso que o Dr. Curley está simplesmente equivocado sobre o fato de que um cristão crente na Bíblia tem que crer em uma predestinação individual arbitrária.
8. II: O Argumento do Inferno.
O Dr. Curley apresenta o seguinte argumento:
1. Pecados menores não merecem punição eterna.
2. A Bíblia ensina que Deus punirá eternamente pecados menores.
3. Portanto, o Deus da Bíblia não existe.
9. Agora, nesse argumento eu acho que as duas premissas são falsas. Mas o tempo só me permite tratar com a segunda. Com respeito à segunda premissa, está longe de ser óbvio que a Bíblia ensina a punição eterna por pecados menores. Antes, o que nos separa de Deus para sempre é o pecado de rejeitá-lo livremente mantendo-o fora de nossas vidas. Esse é um pecado de gravidade e proporção infinita, desde que é a decisão livre das criaturas de rejeitar o próprio Deus. É certo que o Calvinismo do Dr. Curley não tem espaço para esse tipo de pecado. Mas, na visão bíblica, nem é tanto Deus, mas as próprias criaturas quem determinam seus destinos eternos.
10. III: Pecado Original.
O Dr. Curley dá o seguinte argumento:
1. Crianças são condenadas por causa do pecado original.
2. A Bíblia ensina o pecado original.
3. Portanto, o Deus da Bíblia não existe.
11. Eu questiono a primeira premissa. De fato, eu desafio o Dr. Curley a ler pra mim uma simples passagem da Escritura que ensina que as crianças são condenadas por causa do pecado original. A Bíblia não ensina tal coisa. Ao contrário, Jesus tomou crianças pequenas em seus braços e as abençoou dizendo “Deixem as crianças vir a mim…porque das tais é o reino dos céus” (Mc 10.14).
12. IV e V: Justificação por Fé e Exclusivismo. (Os argumentos 4 e 5 são tratados em conjunto)
Aqui o argumento do Dr. Curley parece assim:
1. A Bíblia ensina que Deus dá a fé justificadora àqueles a quem Ele escolher arbitrariamente e exclui os demais.
2. É injusto fazer isso.
3. Portanto, o Deus da Bíblia não existe.
13. Eu acho que a primeira premissa é falsa. Em nenhum lugar o Novo Testamento ensina que a fé justificadora é outorgada arbitrariamente por Deus. Antes, a justificação pela fé é a maravilhosa doutrina de que o perdão de Deus e a salvação são dons gratuitos que você não pode fazer nada para merecer. Essa é uma doutrina maravilhosa, pois nos livra do difícil trabalho de tentar ganhar o favor de Deus e tentar merecer a salvação. Tudo o que nós temos que fazer é colocar a confiança nele livremente. Portanto, Deus não exclui ninguém. Jesus disse, “Se alguém tem sede, venha a mim e beba” (João 7.37). Mas algumas pessoas excluem a Deus livremente de suas vidas.
14. Então, em resumo às cinco objeções teológicas eu quero dizer: Dr. Curley, e eu quero dizer isso sinceramente, eu tenho boas novas pra você. (A palavra “evangelho” significa “boas novas”). Você não tem que ser um Calvinista para ser um Cristão! (Risos).
Então, deixe-me retornar às objeções filosóficas restantes.
15. VI: O Problema do Mal.
Aqui, o argumento do Dr. Curley parece ser alguma coisa como isso:
1. Deus existe.
2. Se Deus é Todo-Poderoso, Ele pode criar o mundo que Ele quiser.
3. Se Deus é Todo-Benevolente, Ele criaria um mundo sem mal.
4. Portanto, o mal não deveria existir.
Mas, o mal existe. Então segue, portanto, que Deus não existe.
16. Agora, o problema com esse argumento é que o Dr. Curley não mostrou que qualquer das duas premissas cruciais é necessariamente verdadeira. Tome a premissa (2), que um Deus Todo-Poderoso pode criar o mundo que Ele quiser. Se Deus deseja criar criaturas livres, então, é logicamente impossível para Ele fazer com que elas livremente façam o que Ele quer. Então, o Dr. Curley teria que mostrar que existe um mundo de criaturas livres que Deus poderia criar, no qual há tanto bem quanto neste mundo, mas que tem menos mal. Mas como ele provaria tal coisa? É pura especulação.
17. E sobre a premissa (3), que um Deus Todo-Amoroso preferiria um mundo sem mal. Essa premissa poderia ser verdade se o propósito de Deus fosse criar um ambiente confortável para seus animais de estimação humanos. Mas na visão Cristã, nós não somos animais de estimação de Deus. E o propósito da vida não é felicidade, como tal, mas o conhecimento de Deus e sua salvação que trará no final das contas a verdadeira felicidade. Mas muitos males ocorrem na vida os quais são totalmente sem propósito com respeito a produzir felicidade humana. Mas eles podem não ser sem propósito com respeito a produzir um profundo conhecimento de Deus. O Dr. Curley teria que provar que existe outro mundo que Deus poderia ter criado com essa quantidade de conhecimento de Deus e de sua salvação, mas com menos mal. Mas como alguém poderia provar tal coisa? Novamente, é pura especulação. E, portanto, o problema do mal, eu penso, é simplesmente inconclusivo e não invalida o teísmo Cristão.
18. Finalmente, VII: O Problema da Moralidade.
Aqui o argumento segue assim:
1. Se a moralidade ordenada por Deus é verdadeira, então Ele é capaz de ordenar qualquer coisa.
2. A moralidade ordenada por Deus é destrutiva à moralidade comumente por nós idealizada.
3. Portanto, a lei moral divina não é verdadeira.
19. Diante disso, mesmo se as premissas desse argumento forem verdadeiras, o argumento é deficiente, visto que é inválido; a conclusão não segue das premissas. A moralidade ordenada por Deus ainda poderia ser verdadeira mesmo se tivesse as conseqüências letais que o Dr. Curley atribui a ela.
20. Mas as premissas são realmente verdadeiras? Bem, eu penso que não. Primeiro, não é o caso de Deus ser o responsável por comandar todas as coisas. Os comandos de Deus necessariamente fluem de sua própria natureza e caráter, que é essencialmente amor, santo, compaixão, justo, e assim por diante. E assim, seus comandos não são arbitrários, mas refletem a própria moralidade perfeita de Deus.
21. Segundo, a moralidade ordenada por Deus não é destrutiva à moralidade precisamente porque os comandos de Deus são estáveis e firmes. O caso de Abraão e Isaque é a exceção que prova a regra. Eu acho que nós podemos seguramente guiar as nossas vidas pelos Dez Mandamentos e pela Regra de Ouro sem nos preocupar se Deus nos mandará fazer alguma coisa contrária. E relembre a alternativa: se não existe nenhum Deus, então tudo é relativo, e nós temos perdido completamente nosso escopo moral. Como Dostoevsky disse corretamente, “Todas as coisas são permitidas”.
22. Penso que apesar do Dr. Curley talvez nos ter dado boas razões para achar que o calvinismo não é verdadeiro, ele não nos deu boas razões para pensar que o teísmo Cristão não é verdadeiro. Ao contrário, eu acho que nós já vimos cinco boas razões, ainda não refutadas, para pensar que o Criador e Designer do universo existe, que é o lócus dos valores absolutos e que se revelou decisivamente em Jesus Cristo. E, portanto, eu penso que o teísmo Cristão é uma cosmovisão mais plausível.

Tradutores: Walson Sales e Samuel Coutinho

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quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

Debate: Craig x Curley: a distinção entre ser cristão e calvinista

Retirado dos site : http://deusamouomundo.com/calvinismo/debate-entre-craig-e-curley-distincao-entre-ser-cristao-e-ser-calvinista/

A distinção entre ser Cristão e ser Calvinista

Nota dos tradutoresO texto a seguir é um trecho adaptado do debate entre Willian Lane Craig e Edwin Curley. O tema central do debate é a “Existência do Deus Cristão”. É interessante notar que Curley, um “ex-cristão”, levanta diversos argumentos para demonstrar que o Deus conforme apresentado pela bíblia é ilógico e, portanto, é muito provável que ele não seja o verdadeiro Deus. O engraçado do seu discurso é que os argumentos são todos voltados contra a concepção calvinista de Deus (por exemplo, um Deus que escolhe arbitrariamente pessoas para mandar para o inferno), o que de fato não é a verdade bíblica; ou seja, o oponente do cristianismo erra completamente o alvo ao atacar o Deus cristão. Respondendo aos argumentos, o Dr. Craig faz a distinção entre ser Cristão e ser Calvinista, tendo em vista que Curley afirmou que “o calvinismo é o cristianismo”, algo comum entre os calvinistas (e parece que entre os “ex-cristãos calvinistas” também). Essa resposta do Dr. Craig foi arrasadora.
Edwin Curley – Discurso de Abertura
1. O.K. Há outros lugares que eu gostaria de estar esta noite. E certamente há outros lugares nos quais minha esposa gostaria de me acompanhar esta noite. Mas eu estou aqui para argumentar contra a existência do Deus cristão. Eu não estou aqui para defender o ateísmo, ao contrário da impressão que o discurso do Dr. Craig pode ter lhe dado. Olha, eu acho que há muitas maneiras de pensar sobre Deus. E eu acho que algumas delas são maneiras que eu poderia aceitar. Eu simplesmente não posso aceitar o Deus cristão.
2. Quando eu era criança, eu era cristão. Quando adulto, passei a ter dúvidas sobre a fé. Por um tempo autodenominei-me agnóstico. Estas dúvidas levaram-me, enquanto eu estava na faculdade, para o estudo da filosofia e sua história. Muitos dos filósofos que estudei eram cristãos, para quem a defesa racional da sua religião era muito importante. Meus estudos não sanaram minhas dúvidas; eles multiplicaram-nas. Hoje eu penso que não há qualquer chance da religião cristã ser verdadeira. ‘Agnóstico’ não parece mais o rótulo correto para mim, não quando estamos falando do Deus cristão.
3. O rótulo mais comum para alguém que uma vez já abraçou o cristianismo e, em seguida, o rejeitou  é “herege”. Eu não tenho nenhuma objeção a esse rótulo, agora que já concordaram em abolir a pena de morte por heresia. (Risos)
4. Minha iniciação neste caminho se deu através da leitura do livro de orações que minha mãe me deu quando eu tinha 16 anos. Na parte de trás estavam impressos os artigos que os membros da minha religião, a Igreja Episcopal, deveriam concordar. Eu não os li cuidadosamente quando estava me preparando para confirmação. Naquele momento eu tinha apenas 13 anos e havia muitas coisas que eu não entendia. O nosso ministro era um homem bom: muito inteligente, culto e humano. Aos 13 anos, sobre sua autoridade, eu estava disposto a aceitar o que quer que ele me dissesse.
5. Então, aos 16 anos, eu li os artigos da religião cuidadosamente e criticamente pela primeira vez. Eu estava perturbado que minha igreja aceitara a predestinação. Antes da fundação do mundo, dizia um dos artigos, Deus tinha escolhido alguns vasos para honra e outros para desonra. Até onde eu podia ver, havia tão bom fundamento bíblico para este ensino quanto para qualquer outra doutrina afirmada pela igreja. Um dos principais princípios de minha igreja era o de que ninguém deveria ser obrigado a acreditar, como necessária para a salvação, em qualquer doutrina que não pudesse ser provada a partir das Escrituras.
6. Havia também fortes razões filosóficas para aceitar a predestinação. Se Deus é onisciente, se ele sabe de tudo, ele deve ter conhecimento prévio do destino das suas criaturas. Se ele é onipotente, pode fazer qualquer coisa, ou qualquer coisa que é logicamente possível fazer, então nada acontece senão por sua vontade. Então, se eu acabar no inferno, ele já conheceria este destino desde a eternidade, e ele teria desejado isso desde a eternidade.
7. A predestinação não é tão amplamente aceita hoje como era quando a minha igreja foi fundada no século 16. Eu conheço muitos cristãos que a rejeitam. E eu simpatizo com eles. O seu coração está no lugar certo, com certeza. Eu não posso acreditar que um Deus justo e amoroso criaria seres e os predestinaria a passar a eternidade no inferno. Mas os cristãos podem rejeitar a predestinação somente se assumirem o custo de ignorar a autoridade de suas escrituras e as implicações de sua teologia.
8. Esqueça a predestinação. E o inferno? Essa é uma situação diferente. Eu não vejo nenhuma razão filosófica para crer em um castigo eterno para os pecadores. A filosofia é contrária a isso.
9. A filosofia ensina que a punição deve ser proporcional ao crime. Vamos admitir, para o bem do argumento, que todos nós somos em algum sentido pecadores. Qual de nós, olhando para o seu coração, pode dizer honestamente que nunca fez nada seriamente errado, pelo menos uma vez em sua vida? Mas a doutrina do Inferno advoga que a maioria de nós pecadores sofrerão tormento eterno.
10. Em alguns casos, isso pode ser justo. Hitler foi o responsável pelas mortes horríveis de milhões de judeus, para não mencionar os ciganos, eslavos e homossexuais. Talvez para crimes dessa magnitude o castigo eterno possa ser justificado.
11. Eu sou, no sentido que eu especifiquei, um pecador. Mas, com toda sinceridade, devo dizer que para mim os meus pecados parecem muito menores em comparação com os de Hitler. Eu não matei ninguém, nem torturei ninguém, nem fui responsável pela morte ou tortura de qualquer um. No entanto, se a doutrina do inferno estiver correta, farei companhia a Hitler no Inferno. Sem dúvida, eu não sou um juiz imparcial neste caso, mas não me parece justo. (Risos)
12. Apesar dessas dificuldades, o inferno fazia parte do ensino da minha igreja, e faz parte do ensino de muitas igrejas cristãs. Este não é um acidente. A doutrina tem forte apoio nas escrituras cristãs.
13. A crença no inferno também perdeu força desde que minha igreja foi fundada. Eu encontro muitos cristãos que rejeitam o inferno. O seu coração está no lugar certo, com certeza. Eu não posso acreditar que um Deus justo e amoroso destinaria a maioria de suas criaturas a passar a eternidade no inferno. Mas os cristãos que rejeitam o inferno podem fazê-lo somente ao custo de rejeitar também a autoridade de suas escrituras.
14. Eu concedo, para o bem do argumento, de que todos nós somos pecadores. Agora, deixe-me qualificar isso. Muito provavelmente todos nós nesta sala somos pecadores, desde que o requisito para ser um pecador seja fazer algo muito errado ao menos uma vez na vida. Mas eu não admito que absolutamente todos os seres humanos são pecadores.
15. Eu tenho uma neta, a quem eu amo. Ela é uma garota doce e tem apenas sete anos. Ela já deve ter cometido um grande número de pecados. Sei que às vezes ela não se importa muito com sua mãe. Às vezes ela é malvada com seu irmão menor. Eu não acho nada disso grave o suficiente para merecer o castigo eterno. Mas, talvez, há pecados que eu não conheça. Em qualquer caso, ela não é completamente inocente. Provavelmente nenhuma criança dessa idade é completamente inocente. E Jesus disse que devemos ser perfeitos como o Pai celeste é perfeito. Isso é um padrão difícil.
16. Mas quando eu penso sobre situação de minha neta em idade tão precoce, digo, na unidade de tratamento intensivo neonatal, onde passou os primeiros meses de sua vida, com um tubo de oxigênio, um tubo de alimentação e um monitor cardíaco todo amarrado em seu corpo minúsculo, pois ela nasceu na 29ª semana de gravidez da minha filha e pesava menos de 1,3608kg ; então, eu não posso pensar nela, nessa fase de sua vida, como uma pecadora merecedora do inferno.
17. Na tradição cristã, é normal batizar crianças em tenra idade, pois acredita-se que eles vêm ao mundo contaminados pelo pecado de Adão e Eva. Esta é a doutrina do pecado original. Eu não posso acreditar no pecado original. Minha neta pode ser uma pecadora agora, mas não quando ela estava na unidade de terapia intensiva.
18. O pecado original também é hoje menos aceito do que quando minha igreja foi fundada. Encontro muitos cristãos que rejeitam o pecado original. Eu simpatizo com eles. O seu coração está no lugar certo, com certeza. Mas os cristãos podem rejeitar o pecado original somente ao custo de um substancial re-interpretação das suas escrituras e tradições.
19. De forma consistente com a doutrina do pecado original, é comum entre os cristãos a acreditar que se nós somos justificados, é pela fé em Jesus. Uma vez que todos nós somos pecadores, não podemos ganhar a salvação pelas nossas obras. Mas podemos ser perdoados e tratados como se fôssemos justos. A marca de termos sido perdoados é que Deus, por um ato de graça, dá-nos a fé.
20. Esta doutrina tem implicações que eu acho horríveis. Isso implica que aqueles entre nós que não têm fé em Jesus não receberam a graça, não foram perdoados, e, se continuarem nesse estado, vão para o inferno. Portanto, a doutrina da justificação pela fé, que tem forte apoio nas escrituras cristãs, conduz inevitavelmente ao exclusivismo, a idéia de que todos os que rejeitam a doutrina cristã devem ser condenados, não importa quão bom eles podem ser, por padrões comuns.
21. Se Deus escolheu os beneficiários de sua graça com base em algum mérito distinto que possuíam, isso pode não ser injusto com aqueles que ele não escolheu, a quem presumiria-se a falta que tal mérito. Mas isso seria contrário à idéia de graça, o que implica um dom gratuito, não é algo dado a alguém que merece por conta do seu mérito.
22. Por isso, normalmente é sustentada a ideia de que Deus não tem qualquer razão para escolher alguns e outros não. Ele age de forma totalmente arbitrária. É um dogma duro e horrendo essa “doutrina da graça”. Suponho que, se você já aceitou o inferno e o pecado original, você pode ser grato por ter uma chance de salvação, mesmo que não parece ser uma loteria em que as chances não estão do seu lado. Claro, se você acha que tem fé, então também pode pensar que ganhou na loteria e ignorar as considerações sobre os infelizes perdedores.
23. Bem, até agora minhas objeções têm sido principalmente teológicas; são objeções aos ensinamentos cuja base é essencialmente bíblica e não filosófica. A principal exceção a essa generalização é a doutrina da predestinação, que tem fundamentos filosóficos, bem como fundamentos bíblicos. Sei que muitos cristãos aqui esta noite não entenderão que a sua compreensão do cristianismo os obriga a aceitar todas essas doutrinas, ou porque eles têm uma interpretação diferente da escritura, ou porque não consideram as escrituras cristãs como absolutamente autoritária na determinação de suas crenças e conduta . Eu tenho dito que aqueles cristãos que adotam uma atitude mais livre em relação as escrituras e não entendem que a sua aceitação do cristianismo os impele à predestinação, ou inferno, ou pecado original, ou a justificação pela fé, ou exclusivismo, têm seus corações no lugar certo, eu digo. Mas eu também acho que os seus pés podem estar plantadas na rampa escorregadia da heresia, e que os cristãos mais conservadores, que conferem maior autoridade às Escrituras, têm o direito mais claro para se autodenominarem cristãos. O quanto do cristianismo tradicional você pode rejeitar e ainda ser um cristão?
24. Vamos considerar agora às objeções não tão biblicamente embasadas. É comum entre os cristãos acreditar que Deus é um ser pessoal, que criou o universo e que é onipotente, onisciente e perfeitamente bom. De fato, é comum dizer que Deus deve possuir todas as perfeições.
25. No entanto, observa-se que o mundo, este ser perfeito criado, tem muitas imperfeições: há muita alegria no mundo; mas também há muito sofrimento, do qual qrande parte aparentemente imerecido; e há pecado. Nós chamamos essas coisas de “mal”. Como tais coisas podem existir em um mundo que deve sua origem a um Deus com os atributos que os cristãos acreditam que seu Deus possui?
26. A resposta usual para isso é dizer que embora Deus podesse ter criado um mundo sem o mal, foi melhor para ele criar esse mundo, apesar dos males que ele contém. A ocorrência desses males era necessário para os bens que são ainda maiores. Se Deus tivesse criado o mundo sem nenhum mal, esse mundo seria menos bom do que o atual, considerando todo o conjunto de coisas, mesmo com todo o mal que ele contém. Isso é chamado de defesa do bem maior.
27. O cristão pode dizer: Nós, seres humanos com razão fazemos muitas coisas que esperamos causar danos evitáveis. Nós construímos uma ponte de São Francisco a Marin County, sabendo que na construção alguns trabalhadores vão cair na água e se afogar. Poderíamos evitar a morte por não construir a ponte. Mas a ponte é um grande bem. Dadas as nossas limitações humanas, não podemos construí-la sem que algumas pessoas morram como consequência. Então, nós a construímos e aceitamos a morte como parte do custo interligar os locais através dessas águas. E permissão divina para a existência do mal também pode ser justificada pelo bem maior a qual tal permissão conduz.
28. Um ser onipotente, é claro, não enfrenta todas as escolhas difíceis que fazemos. Se ele quer uma ponte sobre as águas, ele só precisa dizer: “Faça-se uma ponte.” E haverá.
29. Uma pergunta que a defesa do bem maior levanta é: que tipo de bem poderia estar tão intimamente conectado com o mal que mesmo um ser onipotente teria de aceitar o mal como custo para realizar este bem? E que bem poderia ser tão grande que justificasse tal ser aceitar a quantidade de mal que existe no mundo como preço para alcançar esse bem?
30. A resposta habitual nos dias de hoje é: a liberdade. Se existir o bem moral, deve haver liberdade. E o preço de dar liberdade aos seres humanos é que às vezes eles vão abusar dela. Mesmo um ser onipotente não pode levar uma pessoa a fazer o bem livremente. E a liberdade, com o bem moral que às vezes resulta dela, é um bem suficientemente grande que faz com que os males, que também resultam dela, sejam aceitáveis. [Isto é o que é chamado de defesa do livre-arbítrio.]
31. Há um problema, é claro, ao se apelar para a liberdade humana a fim de resolver o problema do mal, quando você também acredita em predestinação e presciência divina. Este é um problema de longa data, que muitos filósofos têm enfrentado. Nenhuma solução ganhou aceitação geral. Se o Dr. Craig aceita as doutrinas da predestinação e presciência divina e também apela para a liberdade humana para resolver o problema do mal, ele terá que trabalhar uma maneira de explicar como essas coisas são consistentes, e eu vou ouvir com interesse essa explicação.
32. Nesse meio tempo, porém, existem outros problemas sobre o apelo à liberdade. Há males cuja ocorrência não tem nenhuma conexão visível com a liberdade. Teólogos chamam de males naturais, ou seja, coisas como terremotos, inundações, furacões, doenças, e assim por diante. Se um veado morre em um incêndio florestal, sofrendo horrivelmente, isso é um mal. Não é só o sofrimento humano que devemos levar em consideração quando tratamos sobre o bem contra o mal neste mundo.
33. Agora, se você aceitar qualquer coisa como a teoria da evolução, você vai acreditar que havia outros animais no planeta muito antes dos humanos apareceram em cena. Muitos deles devem ter sofrido terrivelmente quando suas espécies se extinguiram. Nenhum destes sofrimentos pode ser justificado como uma conseqüência necessária da liberdade dos seres humanos. Nós não estávamos por perto na ocasião. Então, nada disso parece estar além do poder da onipotência para impedir sem o fracasso do bem.
34. Outra objeção: A defesa do bem maior pode facilmente levar a uma espécie de análise custo-benefício que é profundamente repugnante para o nosso senso moral. Considere o tipo de caso que preocupava Ivan no grande romance de Dostoievski, Os Irmãos Karamazov. A menina é tratada brutalmente por seus pais, que batem nela porque ela fez algo que os deixa com raiva. Talvez ela faz xixi na cama repetidamente, e eles acham que ela tem idade suficiente para controlar a bexiga. Ou, talvez, o pai é um alcoólatra que abusa sexualmente de sua filha. Os Irmãos Karamazov é uma ficção, mas para ouvir sobre casos reais como este, você só precisa ouvir regularmente o jornal das 11h00.
35. A defesa do livre-arbítrio parece dizer em casos deste tipo: bem, é tudo muito triste, é claro, mas este é o preço que temos que pagar para ter liberdade. Para o pai de ter a oportunidade de mostrar o bem moral, Deus deve dar-lhe a oportunidade de escolher o mal. Você não pode ter a oportunidade de um sem o outro. E o fato do pai ter a oportunidade de mostrar o bem moral é um grande bem tal que supera o fato de ele escolher o mal.
36. Mas note quem recebe o bem aqui: É o pai. E notem quem sofre o mal: É a menina. Admitamos, para efeito de argumentação, que o benefício supera o custo. A liberdade é um grande bem. Entretanto, ainda faz alguma diferença quem paga o custo. A liberdade pode ser um grande bem, até mesmo um bem tão grande que compensaria um sofrimento realmente horrível. Mas a justiça requer alguma atenção, não só para o valor líquido do bem, depois de ter subtraído o mal, mas também para a forma como o bem e o mal são distribuídos. Algumas distribuições não são justas.
37. A menção de Ivan Karamazov me traz à minha objeção final. Ivan afirma que, se Deus não existe, tudo é permitido. Dr. Craig acredita na mesma coisa. Dostoiévski, falando através de Ivan, pode ter declarado o problema do mal tão poderosamente quanto qualquer ateu, mas ele próprio era um cristão, que acreditava que Deus deveria existir para que tivessemos senso de moralidade.
38. Eu acho que o oposto é verdadeiro. Eu acho que a fé cristã torna a moralidade, como normalmente pensamos sobre ela, ininteligível. Considere a história de Abraão e Isaque. Um dia, Deus pôs Abraão à prova. Ele disse a Abraão: “Toma teu filho, Isaque, a quem amas, e vai à terra de Moriá, e oferece-o ali em holocausto.” Deus não dá nenhuma razão para este comando horrível. E Abraão não pede nenhuma. Ele simplesmente se propõe a obedecer o comando. E ele quase cumpre a ordem. Ele tem a faca levantada para matar seu filho, quando Deus envia um anjo para deter sua mão. Deus, então, diz que está satisfeito com Abraão. ” Porquanto agora sei que temes a Deus, e não me negaste o teu filho, o teu único filho.” No final, Deus realmente não requer o sacrifício. Mas ele exige que Abraão demonstre a sua disposição em realizar o sacrifício.
39. Qual é a moral desta história? Eu sugiro que seja esta: como criaturas de Deus, a nossa maior lealdade deve ser para Deus, mesmo que isso requeira o sacrifício de nossas mais profundas lealdades humanas; Deus é nosso Criador, nosso Senhor, e nós lhe devemos obediência absoluta, não importa o que ele ordene; ele pode ordenar qualquer coisa. Não existem restrições à sua vontade; de modo que pode fazer o que desejar. Não há previsão do que ele possa exigir; e não há nada que garanta que suas ordens não mudarão de uma hora para outra. No início da história, Deus ordena a Abraão que mate Isaque; no meio ele ordena a Abraão que não mate Isaque.
40. Se existe um Deus, que é capaz de ordenar qualquer coisa; e se a nossa maior lealdade deve ser a este Deus, não há nada, salvo a desobediência a Deus, que possamos seguramente afirmar que esteja além dos limites; nenhum ato de um certo tipo que simplesmente não possa ser feito, até mesmo estupro, para usar o exemplo do Dr. Craig. Se este Deus existe e devemos obedecê-lo incondicionalmente, então qualquer coisa pode vir a ser permitida. Este ponto de vista é destrutivo à moralidade comumente por nós idealizada.
41. Este é o meu argumento de abertura. Eu ofereci sete objeções, sete objeções mortais, eu diria: o teísmo cristão tem o compromisso com a predestinação, com o inferno, com o pecado original, com a justificação pela fé, e com o exclusivismo; não há uma boa solução para o problema do mal; e é destrutivo à moralidade conforme a entendemos. Estas são apenas algumas das objeções que tornam impossível para mim acreditar no Deus cristão.
William Lane Craig – Primeira Refutação
1. Eu quero agradecer ao Dr. Curley por suas observações muito pessoais e sensíveis. Nesse discurso eu espero mostrar, no entanto, que a maioria de suas objeções são destinadas a um alvo falso, em uma concepção de Deus que eu, como Cristão, rejeito. O que o Dr. Curley oferece é, de fato, um conjunto de sete objeções mortais ao Deus Calvinista, não ao Deus Cristão. Somente igualando o Calvinismo ao Cristianismo é que suas objeções têm alguma força. E eu nego exatamente essa igualdade. Eu não sou um Calvinista.
2. Agora, para aqueles que não são familiarizados com essa terminologia, deixe-me explicar. O Calvinismo é um tipo de teologia decorrente do reformador Protestante Francês João Calvino. Essa teologia mantém que todas as pessoas estão escravizadas ao pecado, mas que Deus em sua graça, escolheu soberanamente salvar somente alguns deles e deixar o resto para ser condenados. Aqueles que Ele predestinou à salvação, Ele traz irresistivelmente e os dá uma fé justificadora. Assim, a salvação ou condenação de alguém não é o resultado do livre arbítrio humano, mas de uma escolha soberana de Deus.
3. O Calvinismo é justamente a teologia dos Anglicanos, ou Episcopais, igreja na qual o Dr. Curley foi criado. Mas a maioria das denominações cristãs não defende o Calvinismo. É simplesmente paroquial pensar que todas essas outras denominações não são, portanto, verdadeiramente cristãs. Estão os Católicos, Metodistas, Batistas e Ortodoxos Orientais, todos sobre o terreno escorregadio da heresia como o Dr. Curley afirma? Eu acho que pensar desta forma seria um dogmatismo de visão extremamente limitada.
4. Minhas próprias visões teológicas são amplamente Wesleyanas, chamadas pelo nome de John Wesley, o fundador do Metodismo. Eu creio no livre arbítrio humano e que o lugar no qual nós passaremos a eternidade é, em última análise, o resultado de nossas próprias escolhas. Então, deixe-me considerar especificamente as objeções teológicas do Dr. Curley.
5. I: Predestinação.
O Dr. Curley apresenta o seguinte argumento:
1. Predestinação é incompatível com o amor e a justiça de Deus.
2. Predestinação é ensinada na Bíblia.
3. Portanto, o Deus da Bíblia não existe.
6. Eu concordo com a sua primeira premissa, mas eu nego a segunda, que predestinação, como ele a define, é ensinada na Bíblia. Ao contrário, eu acho que a Bíblia ensina que é a vontade de Deus que todas as pessoas sejam salvas. II Pedro 3.9 declara, “não querendo que ninguém se perca, senão que todos venham a arrepender-se”. E I Timóteo 2.4 diz, “Deus, nosso salvador deseja que todas as pessoas sejam salvas e cheguem ao pleno conhecimento da Verdade”. Então, a vontade de Deus é que todas as pessoas sejam salvas e o único obstáculo contra a realização da Sua vontade é a liberdade humana.
7. Mas e as passagens bíblicas sobre a predestinação? Eu sugiro que elas sejam entendidascorporativamente. Deus predestinou um grupo, um povo, para a glorificação e salvação. Mas quem é membro do grupo? Aqueles que respondem livremente a oferta de perdão de Deus em Cristo Jesus e colocam sua confiança nEle. E, desta forma, eu penso que o Dr. Curley está simplesmente equivocado sobre o fato de que um cristão crente na Bíblia tem que crer em uma predestinação individual arbitrária.
8. II: O Argumento do Inferno.
O Dr. Curley apresenta o seguinte argumento:
1. Pecados menores não merecem punição eterna.
2. A Bíblia ensina que Deus punirá eternamente pecados menores.
3. Portanto, o Deus da Bíblia não existe.
9. Agora, nesse argumento eu acho que as duas premissas são falsas. Mas o tempo só me permite tratar com a segunda. Com respeito à segunda premissa, está longe de ser óbvio que a Bíblia ensina a punição eterna por pecados menores. Antes, o que nos separa de Deus para sempre é o pecado de rejeitá-lo livremente mantendo-o fora de nossas vidas. Esse é um pecado de gravidade e proporção infinita, desde que é a decisão livre das criaturas de rejeitar o próprio Deus. É certo que o Calvinismo do Dr. Curley não tem espaço para esse tipo de pecado. Mas, na visão bíblica, nem é tanto Deus, mas as próprias criaturas quem determinam seus destinos eternos.
10. III: Pecado Original.
O Dr. Curley dá o seguinte argumento:
1. Crianças são condenadas por causa do pecado original.
2. A Bíblia ensina o pecado original.
3. Portanto, o Deus da Bíblia não existe.
11. Eu questiono a primeira premissa. De fato, eu desafio o Dr. Curley a ler pra mim uma simples passagem da Escritura que ensina que as crianças são condenadas por causa do pecado original. A Bíblia não ensina tal coisa. Ao contrário, Jesus tomou crianças pequenas em seus braços e as abençoou dizendo “Deixem as crianças vir a mim…porque das tais é o reino dos céus” (Mc 10.14).
12. IV e V: Justificação por Fé e Exclusivismo. (Os argumentos 4 e 5 são tratados em conjunto)
Aqui o argumento do Dr. Curley parece assim:
1. A Bíblia ensina que Deus dá a fé justificadora àqueles a quem Ele escolher arbitrariamente e exclui os demais.
2. É injusto fazer isso.
3. Portanto, o Deus da Bíblia não existe.
13. Eu acho que a primeira premissa é falsa. Em nenhum lugar o Novo Testamento ensina que a fé justificadora é outorgada arbitrariamente por Deus. Antes, a justificação pela fé é a maravilhosa doutrina de que o perdão de Deus e a salvação são dons gratuitos que você não pode fazer nada para merecer. Essa é uma doutrina maravilhosa, pois nos livra do difícil trabalho de tentar ganhar o favor de Deus e tentar merecer a salvação. Tudo o que nós temos que fazer é colocar a confiança nele livremente. Portanto, Deus não exclui ninguém. Jesus disse, “Se alguém tem sede, venha a mim e beba” (João 7.37). Mas algumas pessoas excluem a Deus livremente de suas vidas.
14. Então, em resumo às cinco objeções teológicas eu quero dizer: Dr. Curley, e eu quero dizer isso sinceramente, eu tenho boas novas pra você. (A palavra “evangelho” significa “boas novas”). Você não tem que ser um Calvinista para ser um Cristão! (Risos).
Então, deixe-me retornar às objeções filosóficas restantes.
15. VI: O Problema do Mal.
Aqui, o argumento do Dr. Curley parece ser alguma coisa como isso:
1. Deus existe.
2. Se Deus é Todo-Poderoso, Ele pode criar o mundo que Ele quiser.
3. Se Deus é Todo-Benevolente, Ele criaria um mundo sem mal.
4. Portanto, o mal não deveria existir.
Mas, o mal existe. Então segue, portanto, que Deus não existe.
16. Agora, o problema com esse argumento é que o Dr. Curley não mostrou que qualquer das duas premissas cruciais é necessariamente verdadeira. Tome a premissa (2), que um Deus Todo-Poderoso pode criar o mundo que Ele quiser. Se Deus deseja criar criaturas livres, então, é logicamente impossível para Ele fazer com que elas livremente façam o que Ele quer. Então, o Dr. Curley teria que mostrar que existe um mundo de criaturas livres que Deus poderia criar, no qual há tanto bem quanto neste mundo, mas que tem menos mal. Mas como ele provaria tal coisa? É pura especulação.
17. E sobre a premissa (3), que um Deus Todo-Amoroso preferiria um mundo sem mal. Essa premissa poderia ser verdade se o propósito de Deus fosse criar um ambiente confortável para seus animais de estimação humanos. Mas na visão Cristã, nós não somos animais de estimação de Deus. E o propósito da vida não é felicidade, como tal, mas o conhecimento de Deus e sua salvação que trará no final das contas a verdadeira felicidade. Mas muitos males ocorrem na vida os quais são totalmente sem propósito com respeito a produzir felicidade humana. Mas eles podem não ser sem propósito com respeito a produzir um profundo conhecimento de Deus. O Dr. Curley teria que provar que existe outro mundo que Deus poderia ter criado com essa quantidade de conhecimento de Deus e de sua salvação, mas com menos mal. Mas como alguém poderia provar tal coisa? Novamente, é pura especulação. E, portanto, o problema do mal, eu penso, é simplesmente inconclusivo e não invalida o teísmo Cristão.
18. Finalmente, VII: O Problema da Moralidade.
Aqui o argumento segue assim:
1. Se a moralidade ordenada por Deus é verdadeira, então Ele é capaz de ordenar qualquer coisa.
2. A moralidade ordenada por Deus é destrutiva à moralidade comumente por nós idealizada.
3. Portanto, a lei moral divina não é verdadeira.
19. Diante disso, mesmo se as premissas desse argumento forem verdadeiras, o argumento é deficiente, visto que é inválido; a conclusão não segue das premissas. A moralidade ordenada por Deus ainda poderia ser verdadeira mesmo se tivesse as conseqüências letais que o Dr. Curley atribui a ela.
20. Mas as premissas são realmente verdadeiras? Bem, eu penso que não. Primeiro, não é o caso de Deus ser o responsável por comandar todas as coisas. Os comandos de Deus necessariamente fluem de sua própria natureza e caráter, que é essencialmente amor, santo, compaixão, justo, e assim por diante. E assim, seus comandos não são arbitrários, mas refletem a própria moralidade perfeita de Deus.
21. Segundo, a moralidade ordenada por Deus não é destrutiva à moralidade precisamente porque os comandos de Deus são estáveis e firmes. O caso de Abraão e Isaque é a exceção que prova a regra. Eu acho que nós podemos seguramente guiar as nossas vidas pelos Dez Mandamentos e pela Regra de Ouro sem nos preocupar se Deus nos mandará fazer alguma coisa contrária. E relembre a alternativa: se não existe nenhum Deus, então tudo é relativo, e nós temos perdido completamente nosso escopo moral. Como Dostoevsky disse corretamente, “Todas as coisas são permitidas”.
22. Penso que apesar do Dr. Curley talvez nos ter dado boas razões para achar que o calvinismo não é verdadeiro, ele não nos deu boas razões para pensar que o teísmo Cristão não é verdadeiro. Ao contrário, eu acho que nós já vimos cinco boas razões, ainda não refutadas, para pensar que o Criador e Designer do universo existe, que é o lócus dos valores absolutos e que se revelou decisivamente em Jesus Cristo. E, portanto, eu penso que o teísmo Cristão é uma cosmovisão mais plausível.

Tradutores: Walson Sales e Samuel Coutinho

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