quinta-feira, 25 de dezembro de 2014

A patrística, o livre-arbítrio e Armínio.

Alguns calvinistas afirmam que a doutrina da predestinação em seus moldes calvinistas sempre foi desde o início a doutrina da igreja cristã e que os pais da igreja eram contra essa história de “livre-arbítrio” que segundo eles foram inventados por Pelágio e consequentemente foi Armínio que reavivou essa doutrina “maléfica”, que supostamente tira a Soberania de Deus. Eles apelam a autoridade de Agostinho de Hipona (IV d.C) que segundo eles foi “o pai da predestinação” e os seus ensinamentos influenciaram, Lutero e Calvino (XVI d.C) o qual com base nos ensinos de Agostinho, Calvino desenvolveu suas teses para defender a doutrina da predestinação e eleição incondicional e o determinismo. (Sabemos que alguns calvinistas defendem o livre-arbítrio em temos compatibilistas.) Mas será isso mesmo? Será que os pais da igreja antes de Agostinho, Lutero e Calvino combatiam o livre-arbítrio? Será que a doutrina do “livre-arbítrio” sempre foi uma heresia histórica combatida, conforme ditam alguns calvinistas?
Uma pequena pesquisa sobre os Patrísticos (pais da igreja, pós-apóstolos, até o século IV) demostra o contrário e percebemos que a grande maioria deles defenderam ou falaram sobre o livre-arbítrio. E que essa doutrina não começou com Pelágio. Vejamos alguns citações:
Os pais primitivos e o livre arbítrio

JUSTINO MÁRTIR (100 à 160/165 d. C)

“Do que dissemos anteriormente, ninguém deve concluir que a consequência do que afirmamos que se sucede ocorre por necessidade do destino, pelo fato de que dizemos ser de antemão conhecidos os acontecimentos. Para isso, vamos esclarecer também esta dificuldade. Nós aprendemos com os profetas e afirmamos que isto é a verdade: que os castigos e tormentos, igualmente as boas recompensas, dão-se a cada um conforme as suas obras, pois se não fosse assim e se ocorresse pelo destino, não existiria em absoluto o livre-arbítrio. Com efeito, se está determinado que este seja bom e aquele mau, nem aquele merece louvor, nem este vitupério. E se o gênero humano não tem poder para fugir por livre determinação daquilo que é vergonhoso e optar pelo belo, é irresponsável por qualquer ação que faça. Porém, que o homem é virtuoso e peca por livre escolha, o demonstramos pelo seguinte argumento: vemos que o próprio sujeito passa de um extremo a outro. Pois bem: se fosse determinado ser mau ou bom, não seria capaz de fazer coisas contrárias nem mudaria [seu comportamento] com tanta frequência. Na verdade, não se poderia dizer que alguns são bons e outros maus a partir do momento em que afirmamos que o destino é a causa de bons e maus, e que faz coisas contrárias a si mesmo; ou deve se ter por verdade aquilo que já anteriormente insinuamos, a saber: que virtude e maldade são meras palavras e que apenas por opinião [pessoal] se classifica algo como bom ou mau – o que, como demonstra a verdadeira razão, é o cúmulo da impiedade e da iniquidade. O que afirmamos ser destino iniludível é que a quem escolher o bem, espera-lhes digna recompensa; e a quem escolher o contrário, espera-lhes igualmente digno castigo. Porque Deus não fez o homem da mesma forma que as outras criaturas, por exemplo, árvores e quadrúpedes, que nada podem fazer por livre determinação, pois nesse caso não seria digno de recompensa ou louvor, nem mesmo por ter escolhido o bem, mas já teria nascido bom; nem, por ter sido mau, seria castigado justamente, pois não agiu livremente, mas por não poder ter sido outra coisa do que foi” (1ª Apologia 43,1-8).

Justino Mártir (160 d.C): A fim de que alguns não presumam, a partir do que temos dito, que tudo acontece por uma necessidade fatal, pois é anunciado como conhecido de antemão, isso nós também explicamos. Nós aprendemos dos profetas e sustentamos ser a verdade, que as punições, castigos e boas recompensas são concedidas de acordo com o mérito das ações de cada homem. Agora, se isso não é desta forma, mas todas as coisas acontecem por destino, então, nada está em nosso próprio poder. Porque, se está predeterminado que este homem será bom e esse outro homem será mau, nem é o primeiro digno de mérito nem o último culpado. E novamente, a menos que a raça humana tenha o poder de evitar o mal e escolher o bem por livre escolha, eles não são responsáveis por suas ações. (A Dicitionary of Early Christian Beliefs, editado por David W. Bercot, pg 285, publicado por Hendrickson, 1998) (tradução Walson Sales)
“Deus, desejando que tanto homens quanto anjos seguissem a sua vontade, resolveu criá-los livres para fazer a justiça. Mas se a Palavra de Deus prediz que certos anjos e certos homens serão certamente castigados, ela fez isso porque sabia previamente que eles seriam irremediavelmente [ímpios], mas não por terem sido criados assim. (DJ, 1.142).” (citado por Norman Geisler, T. S. v.2, pg 77)

IRINEU (130 à 200 d. C)
“Esta frase: ‘Quantas vezes quis acolher os teus filhos, porém tu não quiseste!’ (Mateus 23,37), bem descobriu a antiga lei da liberdade humana, pois Deus fez o homem livre, o qual, assim como desde o princípio teve alma, também gozou de liberdade, a fim de que livremente pudesse acolher a Palavra de Deus, sem que Este o forçasse. Deus, com efeito, jamais se impõe à força, pois n’Ele sempre está presente o bom conselho. Por isso, concede o bom conselho a todos. Tanto aos seres humanos como aos anjos outorgou o poder de escolher - pois também os anjos usam sua razão -, a fim de que àqueles que lhe obedecem possam conservar para sempre este bem como um dom de Deus que eles guardam. Ao contrário, não se encontrará este bem naqueles que O desobedecem e por isso receberão o justo castigo, porque Deus certamente lhes ofereceu benignamente este bem, mas eles não se preocuparam em conservá-lo, nem o acharam valioso, mas desprezaram a bondade suprema. Assim, portanto, ao abandonar este bem e até certo ponto rejeitá-lo, como razão serão réus do justo juízo de Deus, do qual o Apóstolo Paulo dá testemunho em sua Carta aos Romanos: ‘Por acaso desprezas as riquezas de sua bondade, paciência e generosidade, ignorando que a bondade de Deus te impulsiona a arrepender-te? Pela dureza e impenitência do teu coração, tu mesmo acumulas a ira para o Dia da Cólera, quando se revelará o justo juízo de Deus’ (Romanos 2,4-5). Ao contrário, diz: ‘Glória e honra para quem opera o bem’ (Romanos 2,10). Deus, portanto, nos deu o bem, do qual dá testemunho o Apóstolo na mencionada Carta, e aqueles que agem segundo este dom receberão honra e glória, porque fizeram o bem quando estava em seu arbítrio o não fazê-lo; ao contrário, aqueles que não agirem bem serão réus do justo juízo de Deus, porque não agiram bem estando em seu poder fazê-lo. Com efeito, se alguns seres humanos fossem maus por natureza e outros bons por natureza, nem estes seriam dignos de louvor por serem bons, nem aqueles condenáveis, porque assim teriam sido criados. Porém, como todos são da mesma natureza, capazes de conservar e fazer o bem, e também capazes de perdê-lo e não fazê-lo, com justiça os seres sensatos – quanto mais Deus! – louvam os segundos e dão testemunho de que decidiram de maneira justa e perseveraram no bem; ao contrário, reprovam os primeiros e os condenam retamente por terem rejeitado o bem e a justiça. Por esse motivo, os profetas exortavam a todos a agir com justiça e a fazer o bem, como muitas vezes explicamos, porque este modo de nos comportar está em nossas mãos; porém, tendo tantas vezes caído no esquecimento por nossa grande negligência, nos fazia falta um bom conselho. Por isso o bom Deus nos aconselhava o bem por meio dos profetas” (Contra as Heresias 4,37,1-2)

”Se não dependesse de nós o fazer e o não fazer, por qual motivo o Apóstolo, e bem antes dele o Senhor, nos aconselharia a fazer coisas e a nos abster de outras? Sendo, porém, o homem livre na sua vontade, desde o princípio, e livre é Deus, à semelhança do qual foi feito, foi-lhe dado, desde sempre, o conselho de se ater ao bem, o que se realiza pela obediência a Deus. (Contra Heresias, IV, 37. 1.4) (também citado por Norman Geisler em “eleitos, mas livres”, pg 171)

Clemente de Alexandria ( 150-c. 215 d. C.)
“Nos que ouvimos pelas Sagradas Escrituras que a escolha autodeterminada e a recusa foram dadas pelo Senhor aos homens, descansamos no critério infalível da fé, manifestando um espírito desejoso, já que escolhemos a vida e cremos em Deus por intermédio da sua voz. (S, H2.4)” (citado na Teologia Sistemática, Norman Geisler, v 2, pg 78)
“Não somente o crente, mas até mesmo o descrente, é julgado mais retamente. Pois, desde que Deus soube em virtude de sua presciência que essa pessoa não acreditaria, Ele, entretanto, a fim de que ele possa receber a sua própria perfeição, deu-lhe a filosofia antes da fé.” (A Dicitionary of Early Christian Beliefs, editado por David W. Bercot, pg 284, publicado por Hendrickson, 1998)
“A soberania e o livre-arbítrio são compatíveis, pois muitas coisas na vida surgem no exercício da razão humana, tendo recebido a faísca incandescente de Deus. [...] Agora, todas estas coisas têm verdadeiramente origem e existência por causa da providência divina — contudo, não sem a cooperação humana também (5, 6.17, em ibid.).” (Citado em Teologia Sistemática Norman Geisler, V 1, pg 1024).
Orígenes ( 185 a 254 d. C.)
“Está também definido na pregação da Igreja que toda alma racional possui vontade e livre-arbítrio, e que há também para ela uma luta a ser travada contra o demônio e seus anjos e forças adversas, já que eles trabalham para onerá-la de pecados, enquanto que nós, se vivermos retamente e com conselho, devemo-nos esforçar em nos despojarmos deste jugo. Deve-se entender, por conseguinte, que ninguém de nós está submetido à necessidade, de tal modo que, ainda que não queiramos, sejamos a qualquer custo obrigados a fazer coisas boas ou más.” (De Principiis, cap 5) 

“Isto também é claramente definido no ensino da igreja de que cada alma racional é dotada de livre-arbítrio e volição.” (De Principiis, prefácio) Há, de fato, inúmeras passagens nas Escrituras que estabelecem com extrema clareza a existência da liberdade de vontade.” (De Principiis, 3.1) (citado por Geisler, em “Eleitos, mas livres, pg 173-174)”

Além disso, é interessante notar que as acusações de alguns calvinistas contra os ensino de Armínio acerca do livre-arbítrio é na verdade a utilização da falácia do espantalho. Pois os Arminianos clássicos, de acordo com os ensinos de Armínio e seus fiéis seguidores, não acreditam no poder do livre-arbítrio em seu sentido filosófico, mas sim em um ‘livre-arbítrio libertário”, ou seja o livre-arbítrio libertado pela graça (previniente que é resistível). E percebemos que esses ensinos não tem origem em Armínio, mas que a Remostrância retomou os ensinos dos pais da Igreja antes dos ensinos de Agostinho. Segue abaixo outra citação de uns dos pais no qual possuem mais semelhanças em seus escritos com as obras de Armnio e expressões como “precisa de ajuda”, ou “carece de auxílio (da graça) de Deus”, lembram os ensinos de 1.300 anos depois repetidos por Jacob Arminius.

Jerônimo ( 347-420 d. C.)
Vejamos:
“Em vão me deturpas e tentas convencer os ignorantes que eu condeno o livre-arbítrio. Que aquele que condena, seja por si mesmo condenado, pois fomos criados com o dom do livre-arbítrio [...] E verdade que a liberdade da vontade traz consigo a liberdade de decisão. Contudo o homem não age imediatamente a partir do seu livre-arbítrio, mas precisa da ajuda de Deus, que e o único que não precisa ser ajudado. (LSJ, II.VI. 1.33.10) (citado em Teologia Sistemática, Geisler, v2, pg 79)

“Quando nós estamos preocupados com a Graça e misericórdia, o livre-arbítrio é parte anulada; em parte, eu digo, porque tanto depende dele, que queremos e desejamos, e damos consentimento ao curso que escolhemos. Mas depende de Deus se temos o poder em sua força e com sua ajuda para fazer o que desejamos, e para o nosso trabalho e esforço darem resultado.” (Contra Pelagianos, Livro III) (Eleitos, mas livres, pg 76)

Agora percebemos que as acusações dos calvinistas que Armínio era pelagiano são infundadas.

Veja bem essa afirmação:

"O livre-arbítrio é incapaz de iniciar ou de aperfeiçoar qualquer verdade ou bem espiritual sem a Graça. Que não digam a meu respeito, como dizem de Pelágio, que pratico uma ilusão em relação à palavra "Graça", o que quero dizer com isso é que é a Graça de Cristo e que pertence à regeneração [...] Confesso que a mente de [animalis] um homem carnal e natural é obscura e sombria, que suas afeições são corruptas e excessivas, que sua vontade é obstinada e desobediente, e que o homem está morto em pecados." - Jácobs Arminius, In A Letter Adressed to Hippolytus A Collibus”, Works.v. 2, p. 700-1

E Armínio diz mais:
"Em seu estado pecaminoso e caído, o homem não é capaz, de e por si mesmo, quer seja pensar, querer ou fazer o que é, de fato, bom; mas é necessário que seja regenerado e renovado em seu intelecto, afeições ou vontade e em todas as suas atribuições, por Deus em Cristo através do Espírito Santo, para que seja capaz de corretamente compreender, estimar, considerar, desejar e realizar o que quer que seja verdadeiramente bom. Quando ele é feito um participante dessa regeneração ou renovação, eu considero que, uma vez que é liberado do pecado, ele é capaz de pensar, desejar e fazer o que é bom, mas mesmo assim, não sem a contínua ajuda da Graça Divina."

Portanto percebemos que alguns calvinistas não pesquisam ou usam de desonestidade intelectual em seus debates e escritos. E que a doutrina do livre-arbítrio não era de nenhuma forma heresia e muito menos invetada por Pelágio e Retomada por Armínio. O que Armínio defendia era o livre-arbítrio libertário e incompatibilista.

Obs: Esse meu artigo foi formado com base em estudos disponíveis na página Arminianismo, Arminianismo da Depressão e Armínio da Depressão. 

Fontes: http://estudos.gospelprime.com.br/a-igreja-primitiva-e-o-livre-arbitrio/
http://sumateologica.wordpress.com/download/

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quinta-feira, 25 de dezembro de 2014

A patrística, o livre-arbítrio e Armínio.

Alguns calvinistas afirmam que a doutrina da predestinação em seus moldes calvinistas sempre foi desde o início a doutrina da igreja cristã e que os pais da igreja eram contra essa história de “livre-arbítrio” que segundo eles foram inventados por Pelágio e consequentemente foi Armínio que reavivou essa doutrina “maléfica”, que supostamente tira a Soberania de Deus. Eles apelam a autoridade de Agostinho de Hipona (IV d.C) que segundo eles foi “o pai da predestinação” e os seus ensinamentos influenciaram, Lutero e Calvino (XVI d.C) o qual com base nos ensinos de Agostinho, Calvino desenvolveu suas teses para defender a doutrina da predestinação e eleição incondicional e o determinismo. (Sabemos que alguns calvinistas defendem o livre-arbítrio em temos compatibilistas.) Mas será isso mesmo? Será que os pais da igreja antes de Agostinho, Lutero e Calvino combatiam o livre-arbítrio? Será que a doutrina do “livre-arbítrio” sempre foi uma heresia histórica combatida, conforme ditam alguns calvinistas?
Uma pequena pesquisa sobre os Patrísticos (pais da igreja, pós-apóstolos, até o século IV) demostra o contrário e percebemos que a grande maioria deles defenderam ou falaram sobre o livre-arbítrio. E que essa doutrina não começou com Pelágio. Vejamos alguns citações:
Os pais primitivos e o livre arbítrio

JUSTINO MÁRTIR (100 à 160/165 d. C)

“Do que dissemos anteriormente, ninguém deve concluir que a consequência do que afirmamos que se sucede ocorre por necessidade do destino, pelo fato de que dizemos ser de antemão conhecidos os acontecimentos. Para isso, vamos esclarecer também esta dificuldade. Nós aprendemos com os profetas e afirmamos que isto é a verdade: que os castigos e tormentos, igualmente as boas recompensas, dão-se a cada um conforme as suas obras, pois se não fosse assim e se ocorresse pelo destino, não existiria em absoluto o livre-arbítrio. Com efeito, se está determinado que este seja bom e aquele mau, nem aquele merece louvor, nem este vitupério. E se o gênero humano não tem poder para fugir por livre determinação daquilo que é vergonhoso e optar pelo belo, é irresponsável por qualquer ação que faça. Porém, que o homem é virtuoso e peca por livre escolha, o demonstramos pelo seguinte argumento: vemos que o próprio sujeito passa de um extremo a outro. Pois bem: se fosse determinado ser mau ou bom, não seria capaz de fazer coisas contrárias nem mudaria [seu comportamento] com tanta frequência. Na verdade, não se poderia dizer que alguns são bons e outros maus a partir do momento em que afirmamos que o destino é a causa de bons e maus, e que faz coisas contrárias a si mesmo; ou deve se ter por verdade aquilo que já anteriormente insinuamos, a saber: que virtude e maldade são meras palavras e que apenas por opinião [pessoal] se classifica algo como bom ou mau – o que, como demonstra a verdadeira razão, é o cúmulo da impiedade e da iniquidade. O que afirmamos ser destino iniludível é que a quem escolher o bem, espera-lhes digna recompensa; e a quem escolher o contrário, espera-lhes igualmente digno castigo. Porque Deus não fez o homem da mesma forma que as outras criaturas, por exemplo, árvores e quadrúpedes, que nada podem fazer por livre determinação, pois nesse caso não seria digno de recompensa ou louvor, nem mesmo por ter escolhido o bem, mas já teria nascido bom; nem, por ter sido mau, seria castigado justamente, pois não agiu livremente, mas por não poder ter sido outra coisa do que foi” (1ª Apologia 43,1-8).

Justino Mártir (160 d.C): A fim de que alguns não presumam, a partir do que temos dito, que tudo acontece por uma necessidade fatal, pois é anunciado como conhecido de antemão, isso nós também explicamos. Nós aprendemos dos profetas e sustentamos ser a verdade, que as punições, castigos e boas recompensas são concedidas de acordo com o mérito das ações de cada homem. Agora, se isso não é desta forma, mas todas as coisas acontecem por destino, então, nada está em nosso próprio poder. Porque, se está predeterminado que este homem será bom e esse outro homem será mau, nem é o primeiro digno de mérito nem o último culpado. E novamente, a menos que a raça humana tenha o poder de evitar o mal e escolher o bem por livre escolha, eles não são responsáveis por suas ações. (A Dicitionary of Early Christian Beliefs, editado por David W. Bercot, pg 285, publicado por Hendrickson, 1998) (tradução Walson Sales)
“Deus, desejando que tanto homens quanto anjos seguissem a sua vontade, resolveu criá-los livres para fazer a justiça. Mas se a Palavra de Deus prediz que certos anjos e certos homens serão certamente castigados, ela fez isso porque sabia previamente que eles seriam irremediavelmente [ímpios], mas não por terem sido criados assim. (DJ, 1.142).” (citado por Norman Geisler, T. S. v.2, pg 77)

IRINEU (130 à 200 d. C)
“Esta frase: ‘Quantas vezes quis acolher os teus filhos, porém tu não quiseste!’ (Mateus 23,37), bem descobriu a antiga lei da liberdade humana, pois Deus fez o homem livre, o qual, assim como desde o princípio teve alma, também gozou de liberdade, a fim de que livremente pudesse acolher a Palavra de Deus, sem que Este o forçasse. Deus, com efeito, jamais se impõe à força, pois n’Ele sempre está presente o bom conselho. Por isso, concede o bom conselho a todos. Tanto aos seres humanos como aos anjos outorgou o poder de escolher - pois também os anjos usam sua razão -, a fim de que àqueles que lhe obedecem possam conservar para sempre este bem como um dom de Deus que eles guardam. Ao contrário, não se encontrará este bem naqueles que O desobedecem e por isso receberão o justo castigo, porque Deus certamente lhes ofereceu benignamente este bem, mas eles não se preocuparam em conservá-lo, nem o acharam valioso, mas desprezaram a bondade suprema. Assim, portanto, ao abandonar este bem e até certo ponto rejeitá-lo, como razão serão réus do justo juízo de Deus, do qual o Apóstolo Paulo dá testemunho em sua Carta aos Romanos: ‘Por acaso desprezas as riquezas de sua bondade, paciência e generosidade, ignorando que a bondade de Deus te impulsiona a arrepender-te? Pela dureza e impenitência do teu coração, tu mesmo acumulas a ira para o Dia da Cólera, quando se revelará o justo juízo de Deus’ (Romanos 2,4-5). Ao contrário, diz: ‘Glória e honra para quem opera o bem’ (Romanos 2,10). Deus, portanto, nos deu o bem, do qual dá testemunho o Apóstolo na mencionada Carta, e aqueles que agem segundo este dom receberão honra e glória, porque fizeram o bem quando estava em seu arbítrio o não fazê-lo; ao contrário, aqueles que não agirem bem serão réus do justo juízo de Deus, porque não agiram bem estando em seu poder fazê-lo. Com efeito, se alguns seres humanos fossem maus por natureza e outros bons por natureza, nem estes seriam dignos de louvor por serem bons, nem aqueles condenáveis, porque assim teriam sido criados. Porém, como todos são da mesma natureza, capazes de conservar e fazer o bem, e também capazes de perdê-lo e não fazê-lo, com justiça os seres sensatos – quanto mais Deus! – louvam os segundos e dão testemunho de que decidiram de maneira justa e perseveraram no bem; ao contrário, reprovam os primeiros e os condenam retamente por terem rejeitado o bem e a justiça. Por esse motivo, os profetas exortavam a todos a agir com justiça e a fazer o bem, como muitas vezes explicamos, porque este modo de nos comportar está em nossas mãos; porém, tendo tantas vezes caído no esquecimento por nossa grande negligência, nos fazia falta um bom conselho. Por isso o bom Deus nos aconselhava o bem por meio dos profetas” (Contra as Heresias 4,37,1-2)

”Se não dependesse de nós o fazer e o não fazer, por qual motivo o Apóstolo, e bem antes dele o Senhor, nos aconselharia a fazer coisas e a nos abster de outras? Sendo, porém, o homem livre na sua vontade, desde o princípio, e livre é Deus, à semelhança do qual foi feito, foi-lhe dado, desde sempre, o conselho de se ater ao bem, o que se realiza pela obediência a Deus. (Contra Heresias, IV, 37. 1.4) (também citado por Norman Geisler em “eleitos, mas livres”, pg 171)

Clemente de Alexandria ( 150-c. 215 d. C.)
“Nos que ouvimos pelas Sagradas Escrituras que a escolha autodeterminada e a recusa foram dadas pelo Senhor aos homens, descansamos no critério infalível da fé, manifestando um espírito desejoso, já que escolhemos a vida e cremos em Deus por intermédio da sua voz. (S, H2.4)” (citado na Teologia Sistemática, Norman Geisler, v 2, pg 78)
“Não somente o crente, mas até mesmo o descrente, é julgado mais retamente. Pois, desde que Deus soube em virtude de sua presciência que essa pessoa não acreditaria, Ele, entretanto, a fim de que ele possa receber a sua própria perfeição, deu-lhe a filosofia antes da fé.” (A Dicitionary of Early Christian Beliefs, editado por David W. Bercot, pg 284, publicado por Hendrickson, 1998)
“A soberania e o livre-arbítrio são compatíveis, pois muitas coisas na vida surgem no exercício da razão humana, tendo recebido a faísca incandescente de Deus. [...] Agora, todas estas coisas têm verdadeiramente origem e existência por causa da providência divina — contudo, não sem a cooperação humana também (5, 6.17, em ibid.).” (Citado em Teologia Sistemática Norman Geisler, V 1, pg 1024).
Orígenes ( 185 a 254 d. C.)
“Está também definido na pregação da Igreja que toda alma racional possui vontade e livre-arbítrio, e que há também para ela uma luta a ser travada contra o demônio e seus anjos e forças adversas, já que eles trabalham para onerá-la de pecados, enquanto que nós, se vivermos retamente e com conselho, devemo-nos esforçar em nos despojarmos deste jugo. Deve-se entender, por conseguinte, que ninguém de nós está submetido à necessidade, de tal modo que, ainda que não queiramos, sejamos a qualquer custo obrigados a fazer coisas boas ou más.” (De Principiis, cap 5) 

“Isto também é claramente definido no ensino da igreja de que cada alma racional é dotada de livre-arbítrio e volição.” (De Principiis, prefácio) Há, de fato, inúmeras passagens nas Escrituras que estabelecem com extrema clareza a existência da liberdade de vontade.” (De Principiis, 3.1) (citado por Geisler, em “Eleitos, mas livres, pg 173-174)”

Além disso, é interessante notar que as acusações de alguns calvinistas contra os ensino de Armínio acerca do livre-arbítrio é na verdade a utilização da falácia do espantalho. Pois os Arminianos clássicos, de acordo com os ensinos de Armínio e seus fiéis seguidores, não acreditam no poder do livre-arbítrio em seu sentido filosófico, mas sim em um ‘livre-arbítrio libertário”, ou seja o livre-arbítrio libertado pela graça (previniente que é resistível). E percebemos que esses ensinos não tem origem em Armínio, mas que a Remostrância retomou os ensinos dos pais da Igreja antes dos ensinos de Agostinho. Segue abaixo outra citação de uns dos pais no qual possuem mais semelhanças em seus escritos com as obras de Armnio e expressões como “precisa de ajuda”, ou “carece de auxílio (da graça) de Deus”, lembram os ensinos de 1.300 anos depois repetidos por Jacob Arminius.

Jerônimo ( 347-420 d. C.)
Vejamos:
“Em vão me deturpas e tentas convencer os ignorantes que eu condeno o livre-arbítrio. Que aquele que condena, seja por si mesmo condenado, pois fomos criados com o dom do livre-arbítrio [...] E verdade que a liberdade da vontade traz consigo a liberdade de decisão. Contudo o homem não age imediatamente a partir do seu livre-arbítrio, mas precisa da ajuda de Deus, que e o único que não precisa ser ajudado. (LSJ, II.VI. 1.33.10) (citado em Teologia Sistemática, Geisler, v2, pg 79)

“Quando nós estamos preocupados com a Graça e misericórdia, o livre-arbítrio é parte anulada; em parte, eu digo, porque tanto depende dele, que queremos e desejamos, e damos consentimento ao curso que escolhemos. Mas depende de Deus se temos o poder em sua força e com sua ajuda para fazer o que desejamos, e para o nosso trabalho e esforço darem resultado.” (Contra Pelagianos, Livro III) (Eleitos, mas livres, pg 76)

Agora percebemos que as acusações dos calvinistas que Armínio era pelagiano são infundadas.

Veja bem essa afirmação:

"O livre-arbítrio é incapaz de iniciar ou de aperfeiçoar qualquer verdade ou bem espiritual sem a Graça. Que não digam a meu respeito, como dizem de Pelágio, que pratico uma ilusão em relação à palavra "Graça", o que quero dizer com isso é que é a Graça de Cristo e que pertence à regeneração [...] Confesso que a mente de [animalis] um homem carnal e natural é obscura e sombria, que suas afeições são corruptas e excessivas, que sua vontade é obstinada e desobediente, e que o homem está morto em pecados." - Jácobs Arminius, In A Letter Adressed to Hippolytus A Collibus”, Works.v. 2, p. 700-1

E Armínio diz mais:
"Em seu estado pecaminoso e caído, o homem não é capaz, de e por si mesmo, quer seja pensar, querer ou fazer o que é, de fato, bom; mas é necessário que seja regenerado e renovado em seu intelecto, afeições ou vontade e em todas as suas atribuições, por Deus em Cristo através do Espírito Santo, para que seja capaz de corretamente compreender, estimar, considerar, desejar e realizar o que quer que seja verdadeiramente bom. Quando ele é feito um participante dessa regeneração ou renovação, eu considero que, uma vez que é liberado do pecado, ele é capaz de pensar, desejar e fazer o que é bom, mas mesmo assim, não sem a contínua ajuda da Graça Divina."

Portanto percebemos que alguns calvinistas não pesquisam ou usam de desonestidade intelectual em seus debates e escritos. E que a doutrina do livre-arbítrio não era de nenhuma forma heresia e muito menos invetada por Pelágio e Retomada por Armínio. O que Armínio defendia era o livre-arbítrio libertário e incompatibilista.

Obs: Esse meu artigo foi formado com base em estudos disponíveis na página Arminianismo, Arminianismo da Depressão e Armínio da Depressão. 

Fontes: http://estudos.gospelprime.com.br/a-igreja-primitiva-e-o-livre-arbitrio/
http://sumateologica.wordpress.com/download/

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