segunda-feira, 21 de abril de 2014

William Lane Craig: Determinismo, Compatibilismo e Molinismo



Pergunta 157

Perplexo com os Calvinistas

William Lane Craig

Dr. Craig,

Estou perplexo com o grande número de calvinistas que vejo que são líderes cristãos incrivelmente inteligentes e confiáveis. O que eu quero dizer é que, muitos parecem ser capazes de uma extensa análise (bem mais do que eu), mas parecem enfiar suas cabeças na areia quando chegam no problema do mal. Quando não fazem isso, eles tendem a fazer de Deus um ser auto-contraditório. Por que o senhor acha que isso acontece?

Também estou pessoalmente perplexo com a pequena quantidade de líderes que estão adotando o Molinismo. Parece-me que ele responde a maioria das perguntas e é o que cria menos problemas. Entendo que ele pode ser complexo, mas eu não pensaria que podemos simplesmente descansar com o problema do mal não sendo respondido. Não fundamento o que creio nas crenças dos outros, mas não podemos ignorar a influência que outros têm em nossas vidas, ou o desejo de estar em harmonia com eles no que diz respeito a estas opiniões.

De qualquer forma, eu apreciaria suas considerações... como sempre aprecio.

Gordon.

Dr. Craig responde:

Penso que você tem razão, Gordon, que muitos líderes cristãos inteligentes e religiosos são reformados, ou seguidores de João Calvino, em sua teologia. Atualmente estou participando de um livro de quatro pontos de vista sobre a providência divina juntamente com dois teólogos reformados. É evidente de suas contribuições que, apesar dos quebra-cabeças intelectuais levantados pela visão reformada, ambos a adotam porque estão convencidos de que ela representa mais fielmente o ensino da Escritura sobre o assunto, a Escritura sendo a única regra autoritária de fé.

Na verdade, eu não tenho problema com certas afirmações clássicas da visão reformada. Por exemplo, a Confissão de Westminster (Capítulo III) declara que

Desde toda a eternidade, Deus, pelo muito sábio e santo conselho da sua própria vontade, ordenou livre e inalteravelmente tudo quanto acontece, porém de modo que nem Deus é o autor do pecado, nem violentada é a vontade da criatura, nem é tirada a liberdade ou contingência das causas secundárias, antes estabelecidas.

Agora, isto é exatamente o que crê o molinista! A Confissão afirma a preordenação de Deus de tudo quanto acontece assim como a liberdade e contingência da vontade da criatura, de forma que Deus não é o autor do pecado. É trágico que ao rejeitar o conhecimento médio os teólogos reformados se isolam da explicação mais clara da coerência desta maravilhosa confissão.

Rejeitando uma doutrina da providência divina baseada no conhecimento médio de Deus, os teólogos reformados são simples e reconhecidamente deixados com um mistério. O grande teólogo reformado do séc. 17 Francis Turretin cria que uma análise cuidadosa da Escritura leva a duas conclusões indubitáveis, ambas as quais devem ser mantidas em tensão sem comprometer uma ou outra:

que Deus por um lado, por sua providência, não apenas decretou, mas mais certamente assegura, o acontecimento de todas as coisas, sejam livres ou contingentes; por outro lado, entretanto, o homem é sempre livre para agir e muitos efeitos são contingentes. Embora eu não consiga entender como eles possam estar interligados, todavia (por causa da ignorância do modo) este fato não deve (que é certo a partir de outra fonte, isto é, da Palavra) ser colocado em dúvida ou completamente negado (Institutes of Elenctic Theology, 1:512).

Aqui Turretin afirma sem conciliação tanto a soberania de Deus quanto a liberdade humana e a contingência; eles apenas não sabe como encaixá-las. O Molinismo oferece uma solução. Rejeitando essa solução, o teólogo reformado é deixado com um mistério.

Não há nada de errado com mistério per se (a interpretação física correta da mecânica quântica é um mistério!); o problema é que alguns teólogos reformados, como meus dois colaboradores no livro de quatro pontos de vista, tentam resolver o mistério aderindo ao determinismo causal, divino, universal, e uma visão compatibilista da liberdade humana. De acordo com esta visão, a maneira que Deus soberanamente controla tudo que acontece é fazendo com que tudo aconteça, e a liberdade é reinterpretada para ser consistente com ser causalmente determinado por fatores fora da pessoa.

É esta visão, que afirma o determinismo universal e o compatibilismo, que se depara com os problemas que você menciona. Fazer Deus o autor do mal é apenas um dos problemas que esta visão neoreformada enfrenta. Pelo menos cinco vêm imediatamente à mente:

1. O determinismo causal, divino, universal, não pode oferecer uma interpretação coerente da Escritura. Os teólogos reformados clássicos reconhecem isto. Eles reconhecem que a conciliação de textos da Escritura que afirmam a liberdade humana e a contingência com textos da Escritura que afirmam a soberania divina é inescrutável. D. A. Carson identifica nove fluxos de textos que afirmam a liberdade humana: (1) as pessoas enfrentam inúmeras exortações e comandos divinos, (2) são-lhes ditas para obedecer, crer e escolher Deus, (3) as pessoas pecam e se rebelam contra Deus, (4) os seus pecados são julgados por Deus, (5) as pessoas são provadas por Deus, (6) as pessoas recebem recompensas divinas, (7) os eleitos são responsáveis por responder à iniciativa de Deus, (8) orações não são meras exibições escritas por Deus, e (9) Deus literalmente implora que os pecadores se arrependam e sejam salvos (Divine Sovereignty and Human Responsibility: Biblical Perspectives in Tension, pp. 18-22). Estas passagens excluem um entendimento determinista da providência divina, o que impediria a liberdade humana. Os deterministas conciliam o determinismo causal, divino, universal com a liberdade humana reinterpretando a liberdade em termos compatibilistas. O compatibilismo requer o determinismo, então não há nenhum mistério aqui. O problema é que adotar o compatibilismo alcança conciliação somente às custas de negar o que vários textos da Escritura parecem claramente afirmar: a indeterminação e contingência genuínas.

2. O determinismo causal universal não pode ser racionalmente afirmado. Há uma espécie de característica estonteante, autodestrutiva no determinismo. Pois se alguém vem a crer que o determinismo é verdadeiro, ele tem que crer que a razão que veio a crer é simplesmente que ele foi determinado a assim fazer. Ele não tem de fato sido capaz de pesar os argumentos pró e contra e livremente decidir-se sobre esta base. A diferença entre a pessoa que pesa os argumentos em favor do determinismo e os rejeita e a pessoa que os pesa e os aceita é completamente que uma foi deteminada a crer por fatores causais fora de si mesma e a outra foi determinada a não crer. Quando você vem a perceber que sua decisão de crer no determinismo foi ela mesma determinada e que até sua presente percepção desse fato agora mesmo é igualmente determinado, uma espécie de falta de equilíbrio se instala, pois tudo que você pensa, inclusive este mesmo pensamento, está fora de seu controle. O determinismo poderia ser verdadeiro, mas é muito difícil de ver como ele poderia ser alguma vez racionalmente afirmado, visto que sua afirmação mina a racionalidade de sua afirmação.

3. O determinismo universal, divino faz de Deus o autor do pecado e elimina a responsabilidade humana. Em contraste com a visão molinista, na visão determinista até o movimento da vontade humana é causada por Deus. Deus move as pessoas a escolher o mal, e elas não podem fazer de outra forma. Deus determina suas escolhas e as faz comportarem-se mal. Se é mal fazer uma outra pessoa comportar-se mal, então nesta visão Deus não é apenas a causa do pecado e do mal, mas se torna Ele mesmo mau, o que é absurdo. Similarmente, toda responsabilidade humana pelo pecado foi removida. Pois nossas escolhas não dependem realmente de nós: Deus nos causa fazê-las. Nós não podemos ser responsáveis por nossas ações, pois nada que pensamos ou fazemos depende de nós.

4. O determinismo universal, divino anula a agência humana. Visto que nossas escolhas não dependem de nós mas são causadas por Deus, não se pode dizer dos seres humanos que eles são agentes reais. Eles são meros instrumentos por meio dos quais Deus age para produzir algum efeito, bem parecido com um homem usando uma vara para mover uma pedra. Obviamente, causas secundárias retêm todas as suas propriedades e poderes como causas intermediárias, como os teólogos reformados nos recorda, assim como uma vara retém suas propriedades e poderes que a torna adequada aos propósitos daquele que a usa. Pensadores reformados não precisam ser ocasionalistas como Nicholas Malebrance, que cria que Deus é a única causa que há. Mas estas causas intermediárias não são elas mesmas agentes mas meras causas instrumentais, pois elas não têm poder para iniciar uma ação. Daí, é duvidoso que no determinismo divino há realmente mais do que um agente no mundo, a saber, Deus. Esta conclusão não apenas desafia nosso conhecimento de nós mesmos como agentes mas torna inexplicável por que Deus então nos trata como agentes, nos mantendo responsáveis por aquilo que Ele nos causou e nos usou para fazer.

5. O determinismo universal, divino torna a realidade em uma farsa. Na visão determinista, todo o mundo se torna um espetáculo vão e sem sentido. Não há agentes livres em rebelião contra Deus, a quem Deus procura vencer por meio de Seu amor, e ninguém que livremente responde a esse amor e livremente dá seu amor e louvor a Deus em troca. Todo o espetáculo é uma charada cujo único fator real é o próprio Deus. Longe de glorificar a Deus, a visão determinista, estou convencido, deprecia Deus por se envolver em tal charada absurda. É extremamente ofensivo a Deus pensar que Ele criaria seres que são em todos os aspectos causalmente determinados por Ele e então os trata como se eles fossem agentes livres, punindo-os pelas ações equivocadas que Ele os faz praticarem ou amando-os como se eles fossem agentes que livremente respondem. Deus seria como uma criança que arranja seus soldados de brinquedo e os move ao redor de seu mundo de brincadeira, fingindo que eles são pessoas reais cujas ações não são de fato suas e fingindo que eles merecem louvor ou culpa. Estou certo que os deterministas reformados, em contraste com os teólogos reformados clássicos, ficarão indignados com tal comparação. Mas por que ela não é adequada para a doutrina universal, divina, causal é um mistério para mim.

Então, por que tantos líderes cristãos inteligentes e fiéis aceitam o Calvinismo? Penso que o tipo de Calvinismo representado pela afirmação citada acima da Confissão de Westminster é um resumo fiel do ensino da Escritura e portanto deveria ser crido. É somente quando alguém vai além dele para tentar resolver o mistério adotando o determinismo e o compatibilismo que ele se envolve em dificuldades. Por isso, na medida em que estes líderes cristãos estão contentes em permanecer com o mistério, penso que eles têm uma posição razoável. A vasta maioria deles têm provavelmente pouco entendimento do Molinismo e portanto são apenas insuficientemente informados para tomar uma decisão. Alguns anos atrás eu discursei no Seminário de Westminster em San Diego sobre o conhecimento médio, e na metade do período de Perguntas e Respostas após minha palestra, um dos professores disse, “Estou envergonhado de dizer, Dr. Craig, que não somos ainda capazes de discutir este assunto com o senhor porque não estamos completamente familiarizados com o que o senhor está dizendo.” Ele estava envergonhado que como um teólogo profissional ele estava tão desinformado destes debates. Em contrapartida, alguns teólogos que pertencem à tradição reformada têm passado para o Molinismo. Quando proferi as palestras Stob no Calvin College and Seminary, fiquei chocado quando os teólogos no seminário me disseram que todos eles eram molinistas! Cada vez mais encontro pessoas que estão tomando o rumo molinista (tanto do lado calvinista quando teísta aberto!)

Então, não seja duro demais com os nossos irmãos calvinistas. Ofereça-lhes algo melhor, e espere que eles o adotem.


Tradução: Paulo Cesar Antunes

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segunda-feira, 21 de abril de 2014

William Lane Craig: Determinismo, Compatibilismo e Molinismo



Pergunta 157

Perplexo com os Calvinistas

William Lane Craig

Dr. Craig,

Estou perplexo com o grande número de calvinistas que vejo que são líderes cristãos incrivelmente inteligentes e confiáveis. O que eu quero dizer é que, muitos parecem ser capazes de uma extensa análise (bem mais do que eu), mas parecem enfiar suas cabeças na areia quando chegam no problema do mal. Quando não fazem isso, eles tendem a fazer de Deus um ser auto-contraditório. Por que o senhor acha que isso acontece?

Também estou pessoalmente perplexo com a pequena quantidade de líderes que estão adotando o Molinismo. Parece-me que ele responde a maioria das perguntas e é o que cria menos problemas. Entendo que ele pode ser complexo, mas eu não pensaria que podemos simplesmente descansar com o problema do mal não sendo respondido. Não fundamento o que creio nas crenças dos outros, mas não podemos ignorar a influência que outros têm em nossas vidas, ou o desejo de estar em harmonia com eles no que diz respeito a estas opiniões.

De qualquer forma, eu apreciaria suas considerações... como sempre aprecio.

Gordon.

Dr. Craig responde:

Penso que você tem razão, Gordon, que muitos líderes cristãos inteligentes e religiosos são reformados, ou seguidores de João Calvino, em sua teologia. Atualmente estou participando de um livro de quatro pontos de vista sobre a providência divina juntamente com dois teólogos reformados. É evidente de suas contribuições que, apesar dos quebra-cabeças intelectuais levantados pela visão reformada, ambos a adotam porque estão convencidos de que ela representa mais fielmente o ensino da Escritura sobre o assunto, a Escritura sendo a única regra autoritária de fé.

Na verdade, eu não tenho problema com certas afirmações clássicas da visão reformada. Por exemplo, a Confissão de Westminster (Capítulo III) declara que

Desde toda a eternidade, Deus, pelo muito sábio e santo conselho da sua própria vontade, ordenou livre e inalteravelmente tudo quanto acontece, porém de modo que nem Deus é o autor do pecado, nem violentada é a vontade da criatura, nem é tirada a liberdade ou contingência das causas secundárias, antes estabelecidas.

Agora, isto é exatamente o que crê o molinista! A Confissão afirma a preordenação de Deus de tudo quanto acontece assim como a liberdade e contingência da vontade da criatura, de forma que Deus não é o autor do pecado. É trágico que ao rejeitar o conhecimento médio os teólogos reformados se isolam da explicação mais clara da coerência desta maravilhosa confissão.

Rejeitando uma doutrina da providência divina baseada no conhecimento médio de Deus, os teólogos reformados são simples e reconhecidamente deixados com um mistério. O grande teólogo reformado do séc. 17 Francis Turretin cria que uma análise cuidadosa da Escritura leva a duas conclusões indubitáveis, ambas as quais devem ser mantidas em tensão sem comprometer uma ou outra:

que Deus por um lado, por sua providência, não apenas decretou, mas mais certamente assegura, o acontecimento de todas as coisas, sejam livres ou contingentes; por outro lado, entretanto, o homem é sempre livre para agir e muitos efeitos são contingentes. Embora eu não consiga entender como eles possam estar interligados, todavia (por causa da ignorância do modo) este fato não deve (que é certo a partir de outra fonte, isto é, da Palavra) ser colocado em dúvida ou completamente negado (Institutes of Elenctic Theology, 1:512).

Aqui Turretin afirma sem conciliação tanto a soberania de Deus quanto a liberdade humana e a contingência; eles apenas não sabe como encaixá-las. O Molinismo oferece uma solução. Rejeitando essa solução, o teólogo reformado é deixado com um mistério.

Não há nada de errado com mistério per se (a interpretação física correta da mecânica quântica é um mistério!); o problema é que alguns teólogos reformados, como meus dois colaboradores no livro de quatro pontos de vista, tentam resolver o mistério aderindo ao determinismo causal, divino, universal, e uma visão compatibilista da liberdade humana. De acordo com esta visão, a maneira que Deus soberanamente controla tudo que acontece é fazendo com que tudo aconteça, e a liberdade é reinterpretada para ser consistente com ser causalmente determinado por fatores fora da pessoa.

É esta visão, que afirma o determinismo universal e o compatibilismo, que se depara com os problemas que você menciona. Fazer Deus o autor do mal é apenas um dos problemas que esta visão neoreformada enfrenta. Pelo menos cinco vêm imediatamente à mente:

1. O determinismo causal, divino, universal, não pode oferecer uma interpretação coerente da Escritura. Os teólogos reformados clássicos reconhecem isto. Eles reconhecem que a conciliação de textos da Escritura que afirmam a liberdade humana e a contingência com textos da Escritura que afirmam a soberania divina é inescrutável. D. A. Carson identifica nove fluxos de textos que afirmam a liberdade humana: (1) as pessoas enfrentam inúmeras exortações e comandos divinos, (2) são-lhes ditas para obedecer, crer e escolher Deus, (3) as pessoas pecam e se rebelam contra Deus, (4) os seus pecados são julgados por Deus, (5) as pessoas são provadas por Deus, (6) as pessoas recebem recompensas divinas, (7) os eleitos são responsáveis por responder à iniciativa de Deus, (8) orações não são meras exibições escritas por Deus, e (9) Deus literalmente implora que os pecadores se arrependam e sejam salvos (Divine Sovereignty and Human Responsibility: Biblical Perspectives in Tension, pp. 18-22). Estas passagens excluem um entendimento determinista da providência divina, o que impediria a liberdade humana. Os deterministas conciliam o determinismo causal, divino, universal com a liberdade humana reinterpretando a liberdade em termos compatibilistas. O compatibilismo requer o determinismo, então não há nenhum mistério aqui. O problema é que adotar o compatibilismo alcança conciliação somente às custas de negar o que vários textos da Escritura parecem claramente afirmar: a indeterminação e contingência genuínas.

2. O determinismo causal universal não pode ser racionalmente afirmado. Há uma espécie de característica estonteante, autodestrutiva no determinismo. Pois se alguém vem a crer que o determinismo é verdadeiro, ele tem que crer que a razão que veio a crer é simplesmente que ele foi determinado a assim fazer. Ele não tem de fato sido capaz de pesar os argumentos pró e contra e livremente decidir-se sobre esta base. A diferença entre a pessoa que pesa os argumentos em favor do determinismo e os rejeita e a pessoa que os pesa e os aceita é completamente que uma foi deteminada a crer por fatores causais fora de si mesma e a outra foi determinada a não crer. Quando você vem a perceber que sua decisão de crer no determinismo foi ela mesma determinada e que até sua presente percepção desse fato agora mesmo é igualmente determinado, uma espécie de falta de equilíbrio se instala, pois tudo que você pensa, inclusive este mesmo pensamento, está fora de seu controle. O determinismo poderia ser verdadeiro, mas é muito difícil de ver como ele poderia ser alguma vez racionalmente afirmado, visto que sua afirmação mina a racionalidade de sua afirmação.

3. O determinismo universal, divino faz de Deus o autor do pecado e elimina a responsabilidade humana. Em contraste com a visão molinista, na visão determinista até o movimento da vontade humana é causada por Deus. Deus move as pessoas a escolher o mal, e elas não podem fazer de outra forma. Deus determina suas escolhas e as faz comportarem-se mal. Se é mal fazer uma outra pessoa comportar-se mal, então nesta visão Deus não é apenas a causa do pecado e do mal, mas se torna Ele mesmo mau, o que é absurdo. Similarmente, toda responsabilidade humana pelo pecado foi removida. Pois nossas escolhas não dependem realmente de nós: Deus nos causa fazê-las. Nós não podemos ser responsáveis por nossas ações, pois nada que pensamos ou fazemos depende de nós.

4. O determinismo universal, divino anula a agência humana. Visto que nossas escolhas não dependem de nós mas são causadas por Deus, não se pode dizer dos seres humanos que eles são agentes reais. Eles são meros instrumentos por meio dos quais Deus age para produzir algum efeito, bem parecido com um homem usando uma vara para mover uma pedra. Obviamente, causas secundárias retêm todas as suas propriedades e poderes como causas intermediárias, como os teólogos reformados nos recorda, assim como uma vara retém suas propriedades e poderes que a torna adequada aos propósitos daquele que a usa. Pensadores reformados não precisam ser ocasionalistas como Nicholas Malebrance, que cria que Deus é a única causa que há. Mas estas causas intermediárias não são elas mesmas agentes mas meras causas instrumentais, pois elas não têm poder para iniciar uma ação. Daí, é duvidoso que no determinismo divino há realmente mais do que um agente no mundo, a saber, Deus. Esta conclusão não apenas desafia nosso conhecimento de nós mesmos como agentes mas torna inexplicável por que Deus então nos trata como agentes, nos mantendo responsáveis por aquilo que Ele nos causou e nos usou para fazer.

5. O determinismo universal, divino torna a realidade em uma farsa. Na visão determinista, todo o mundo se torna um espetáculo vão e sem sentido. Não há agentes livres em rebelião contra Deus, a quem Deus procura vencer por meio de Seu amor, e ninguém que livremente responde a esse amor e livremente dá seu amor e louvor a Deus em troca. Todo o espetáculo é uma charada cujo único fator real é o próprio Deus. Longe de glorificar a Deus, a visão determinista, estou convencido, deprecia Deus por se envolver em tal charada absurda. É extremamente ofensivo a Deus pensar que Ele criaria seres que são em todos os aspectos causalmente determinados por Ele e então os trata como se eles fossem agentes livres, punindo-os pelas ações equivocadas que Ele os faz praticarem ou amando-os como se eles fossem agentes que livremente respondem. Deus seria como uma criança que arranja seus soldados de brinquedo e os move ao redor de seu mundo de brincadeira, fingindo que eles são pessoas reais cujas ações não são de fato suas e fingindo que eles merecem louvor ou culpa. Estou certo que os deterministas reformados, em contraste com os teólogos reformados clássicos, ficarão indignados com tal comparação. Mas por que ela não é adequada para a doutrina universal, divina, causal é um mistério para mim.

Então, por que tantos líderes cristãos inteligentes e fiéis aceitam o Calvinismo? Penso que o tipo de Calvinismo representado pela afirmação citada acima da Confissão de Westminster é um resumo fiel do ensino da Escritura e portanto deveria ser crido. É somente quando alguém vai além dele para tentar resolver o mistério adotando o determinismo e o compatibilismo que ele se envolve em dificuldades. Por isso, na medida em que estes líderes cristãos estão contentes em permanecer com o mistério, penso que eles têm uma posição razoável. A vasta maioria deles têm provavelmente pouco entendimento do Molinismo e portanto são apenas insuficientemente informados para tomar uma decisão. Alguns anos atrás eu discursei no Seminário de Westminster em San Diego sobre o conhecimento médio, e na metade do período de Perguntas e Respostas após minha palestra, um dos professores disse, “Estou envergonhado de dizer, Dr. Craig, que não somos ainda capazes de discutir este assunto com o senhor porque não estamos completamente familiarizados com o que o senhor está dizendo.” Ele estava envergonhado que como um teólogo profissional ele estava tão desinformado destes debates. Em contrapartida, alguns teólogos que pertencem à tradição reformada têm passado para o Molinismo. Quando proferi as palestras Stob no Calvin College and Seminary, fiquei chocado quando os teólogos no seminário me disseram que todos eles eram molinistas! Cada vez mais encontro pessoas que estão tomando o rumo molinista (tanto do lado calvinista quando teísta aberto!)

Então, não seja duro demais com os nossos irmãos calvinistas. Ofereça-lhes algo melhor, e espere que eles o adotem.


Tradução: Paulo Cesar Antunes

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